sexta-feira, 17 de novembro de 2006

DUTO

A proteção materna me deixou invulnerável.
Não pensei uma vez sequer na linha de combate;
linha de rugas.

Nunca me propus a comandar o corso.
Nunca me vi subalterno ao ódio.
Nunca mensurei atitudes sem prévia prospecção.

Adiei o grito sem pensar na mudez.
Entendi que nada envelhece sem alguma violência.
E que o canto nem sempre descende da alegria.

Há um duto interior por onde dores e alegrias entram;
e é por ele que palavras saem para se dissolverem no ar.
As que poluem duram pouco tempo.
As que purificam ficam.

Ficam firmes e indeléveis
como doenças impregnadas nos colchões;
contagiam vidas quando se revestem de som;
fazem lembrar alguma coisa que não lembramos antes;
resíduo do nosso primitivismo individual.
Como fruta que volta à primeira semente;
Como cinza de árvore que alimenta a raiz.
Como som de coração batendo, reverberando dentro do ventre
antes do primeiro centímetro visível de embrião.

2 comentários:

Alves disse...

Essa vc pegou de primeira,Raul...
Visceral.

Paula Ribeiro disse...

paulo mendes campos é da turma do fernando sabino e otto lara rezende, mas eu conheço pouco dele. acho que um começo é esse livro, 'o amor acaba' (título sugestivo).

quanto ao seu texto: bonito. como sempre.

beijos

p.s.: eu li o seu email, mas ainda não tenho uma resposta.