quinta-feira, 19 de junho de 2008

EVAPORAR

O futuro tem, pelo menos, a vantagem de não ser o presente.

Apesar de imprevisível, inacessível e descolorido, ainda não uma realidade que doa no estômago. O futuro pode ser um alicerce para a projeção da miséria humana em toda sua infalibilidade ou uma verdade da qual não queiramos saber. Não importa. Basta se encharcar do agora que possuímos como um pano de chão embebido de lama para sentir o que eu estou falando. O agora me traz sentimentos que de tão interiores chegam a ser vazios: não descubro, pressinto.

Há que se entender tantos sinais a nossa volta. Tatear no escuro do mundo nossa imaterialidade. Entrar em estado gasoso, já que é assim que dizem que as almas se materializam. Mas no futuro a gente sabe que não existe alma. Lá, alma é mentira e uma mentira que convence mais do que qualquer verdade.

Olha só que verdade triste: por ter mais dinheiro do que os que passam fome já sou, de algum modo, desonesto. Sou um elo formador da corrente da desigualdade. Contribuo para o distanciamento consentindo. E mesmo no momento da covarde fuga sou capaz de me sentir bem: já providenciaram uma música para esse momento. Anestesiaram a dor de sermos o que somos e estarmos nesse mundo em forma de gente em vez de outra coisa.

A “verdade realmente verdadeira” é que a vida é cheia de problemas e a gente passa tempo demais tentando ser discreto. É preciso evaporar. Conseguir se transportar para o futuro, porque este, ao menos tem a vantagem de não ser o presente.

5 comentários:

Raul disse...

...para ler ouvindo "Evaporar", do Amarante...

Ferdi disse...

Mais triste ainda é evaporar para o passado...

paula r. disse...

dá pra evaporar prum lugar feliz e daí congelar?

Raul disse...

Espero que sim Paulinha. Juro que quando descobrir como, te aviso.

Alves disse...

Muito bonito isso aí Raul!
Tá mandando muito bem!