sábado, 14 de junho de 2008

ELA

Ela foi feita pra realizar desejos. É a solução para os meus sonhos não consumados. É um paraíso para as vontades da carne. É uma ordem irracional, um “carpe diem” da boca pra fora, uma profecia vã.

Eu nela sou eu mesmo? E o que há dela em mim, além do próprio mandamento de adorá-la em segredo e em silêncio?

Ela foi modelada com todo o zelo até no seu jeito de ser desleixada. Tudo que a compõe foi calculado para ser de meu agrado. Sim. Eu gosto das unhas com esmalte descascando, as unhas mal ruídas. Eu gosto do cabelo embaraçado, preso para disfarçar os nós e gosto das pontas ressecadas de cada fio, queimadas de sol. Eu gosto da calça barata e surrada, apertando matéria em espaço insuficiente.

Ela foi feita para, de alguma forma, eu despejar meu gozo. Mesmo que só em pensamento? só com o olhar? Nela estaria a amplitude absoluta do sentimento? Do desejar antes, gostar depois? Do “se amassar” antes de saber o nome? Nela estaria a significação da mediocridade inerente a mim? A justificativa para a tão condenada banalização do amor? Nela estaria a perdição que eu procuro? Há maneira de se perder em alguém? E o amor, já não é banal antes de existirem ela, eu e toda essa bobagem?

Ela é a porta menos estreita, escancarada, pedindo calada pra ser invadida. Serei eu, algum dia, o invasor?

Ela é a outra vida nessa vida. Tesão platônico.

4 comentários:

mariasamara disse...

troca o ela por ele, que faço minhas as suas palavras lindamente escritas.

Ferdi disse...

Lindo mesmo, viu, Raul! Tô para te dizer que é uma das coisas mais lindas que já li aqui (e sempre leio coisas lindas aqui). Adorei a sutileza desse trecho: "Eu gosto da calça barata e surrada, apertando matéria em espaço insuficiente".
Sensacional!
Mostre isso a ela!
Bjos!

Raul disse...

Valeu Ferdi! Eu já mostrei tudo isso a ela. Acho que ela gostou também...

Sam, que bom que você conseguiu adaptar o texto para a realidade feminina. Isso é importante também...

Alves disse...

Usando seus poderes para o mal, heim velho! Ou seria para o bem!?
Ré,ré!