quarta-feira, 7 de março de 2007

1973

Faz um tempo que escrevi este texto. Várias de suas partes acabei utilizando em vários escritos meus e até em alguns trechos da hq "Curva do Rio", publicada na última edição da Grafitti. A influência da prosa roseana nesta estória inacabada é evidente e intencional. Um exercício de mineiridade, uma brincadeira minha para celebrar meu escritor predileto. É isso aí.

1973

Não sou homem de chorar, nem de sorrir sem a justa causa. Gosto é dos descaminhos. Os avessos. Por isso dei de encostar aqui na Vereda Morta. O tempo passando translouco, ora passado, ora futuro. Diversas saudades, num só lugar. Pedacinhos da gente espalhados por toda parte, o arraial dando conta de tudo. Ou foi por conta do sorriso dela? Anézia. Quando ela se sorria, tudo se aquietava, eu parava num desexistir. Transe. Urubu solto no céu, os altos pensamentos. Agora clareio minha idéia, campeio meu juízo. Anézia... O sorriso dela. O dia que cheguei aqui na Vereda Morta ficou cravado na memória. Os cachorros dando seu alerta, as muitas caras curiosas, o silêncio escrito nos olhos do povo do lugar. Relembro. Um bichinho quis pousar em mim, desfez vôo e foi dar no ipê de frente a vendinha. Tudo mantendo a prudente e mineira distância. Dei de seguir aquele insetozinho, fiz caminho da venda. Vendinha comum, no trivial dos Gerais. Cerquinha de bambu, panelas, canecas, cabaças e uma placa da Coca-cola no alto da porta destoando do de-redor. Essas modernidades... Lá dentro um balcão já comido de cupim, e um velho por detrás -Seu Geraldo. Vi-nem-vi, já era tarde. Só Anézia cabia nos meus olhos. Sentada no cantinho da venda. Ela e o livro, os dois como um só. Mãozinha preta dela segurando o livro. Perdida naquele mundo, lia e se sorria. Foi aí que fiquei aqui, meu coração criou raiz. Agora lembro. 1973.

7 comentários:

Raul disse...

Massa demais!

Você deve realmente ter encarnado Rosa pra escrever isso...muito bom...

Fernanda disse...

Guimarães Rosa é a melhor das influências. Mas não é qlq um que consegue transformar isso em palavras. Vc conseguiu.
Vc vai levar a sério esse negócio de escrever, né, Alves?

Alves disse...

Essa é uma possibilidade cada vez mais real na minha vida, Ferdi...

juju disse...

Lindo!
Lindo demais...

Anônimo disse...

Muito interessante! Realmente me remeteu ao "Rosa"... vou até indicá-lo a uma amiga nossa e também admiradora: Fatiminha.
Continue assim garoto!
Abraceijos

Paula Ribeiro disse...

que coisa mais linda!

Liliane Pelegrini disse...

Gostei tanto que tô querendo publicar seu 1973 no blogdepapel, coluna de internet aqui de O TEMPO. Tudo com os devidos créditos, claro. Posso???
Ah, quanto ao Palácio, você tem razão, tem pessoas mais simples que realmente vacilam, apesar do espaço ser aberto a qualquer um. As pessoas precisam perder o medo (tipo aquela música do Arnaldo Antunes, ainda com Titãs). Mas, naquele caso, eram jornalistas, pessoas que estudaram, se formaram, que, enfim, deviam se preocupar em ter cultura também (não é porque não se trabalha no caderno cultural que se pode passar sem arte). E o pior que essas pessoas daqui que nunca foram ao PA têm salário maior que o meu. Ótimo isso.
Beijo!!!