sexta-feira, 8 de dezembro de 2006


É fim de ano de novo, mas confesso que até agora minha consciência não percebeu tal fato. Ainda não avisaram meu espírito natalino, hibernando lá no fundo do guarda-roupa d’alma que é tempo de pensar em coisa legais pra se comprar, em fazer planos para o décimo terceiro, em se entupir de porcarias “comestíveis” que o ambiente nefasto em que vivemos nos impõe consumir, em vislumbrar a possibilidade de uma viagenzinha no próximo mês, mesmo que isso implique coisas que você não tem; como tempo vago para atividades dessa natureza.

Juro que meu corpo pensa que ainda é maio ou junho, e não desacelera. Não sente a mínima vontade de reduzir o ritmo, muito menos se entregar a fadiga dessa época em que estamos. Passo pelas vitrines, vejo os comerciais, participo das conversas, mas nada. Aquele cheiro bom de preparativos, o clima inerente a esse período, o sonho impossível que você tem lá no fundo desde criança (porque quando você nasceu já existia Hollywood) de que caia neve no dia 25 e não exista miséria e fome no mundo nesta data, enfim, essa carga de sentidos distintos que anulam a epifania do Natal, mas colorem o planeta. Pois é, não sinto nada disso.

Talvez a sobrecarga, ou o sobretempo (palavra com a qual defino a imaginária sobreposição do tempo, interrompendo seu ciclo linear e conseqüentemente reciclando-o); ou até mesmo a aptidão de perceber que não se está vivendo, mas se está apenas participando como um coadjuvante da historinha da vida e não há qualquer ferramenta útil ao seu alcance. Ou talvez a ordem natural das coisas, e uma bobagem de grande porte da minha parte, nessa busca por um anestésico barato.

Ao que tudo indica, quando vier o choque, o estalo, o abrir dos olhos, o acordar pra vida, o enxergar o que está abaixo do nariz, eu vou estar ligeiramente despreparado e tudo passará numa velocidade assustadora, impedindo a minha participação efetiva nos acontecimentos da minha própria vida.

Minha segunda consciência – que é quem vos fala – percebe as coisas antes da primeira. Esta última, por trabalhar em tempo integral, passa às vezes por crises como a de agora, e não consegue se desprender do que meu alicerce cerebral pondera como importante. Durante o sono, que é quando deveria acompanhar o resto de mim e descansar, ela continua inserindo funções em células, fazendo auto-somas e vínculos de planilha. Perdeu o juízo a coitadinha?

Sei que o pedaço da vida guardado para conquistas e conclusões está perto de passar pelo tempo presente, da mesma forma que os pedaços do vinil com o refrão e o solo de guitarra passam pela agulha e saem pelas caixas de som. Vai ser como uma projeção real dentro do espelho, com imagens do mesmo tamanho e com um fundo musical. Talvez haja frases entre os intervalos de silêncio – ou de som, se assim se preferir – e mensagens claras dizendo o que se deverá fazer.

Penso que as urgências que tomaram meu tempo sem planejamento por todo o sempre até aqui irão se dissolver no ar, ou pelo menos pesar para um outro lado que não o meu.


REFERENCIAL TEÓRICO:
Segundo cientistas israelenses, em tarefas que exigem muita atenção (como identificar uma imagem em uma série rápida de figuras), o cérebro concentra esforços em áreas sensoriais e silencia uma região associada ao sentimento de introspecção. O que significa que, diante de uma tarefa difícil, você literalmente esquece que a vida existe. (Superinteressante – edição 299 – ago/2006)

He he... é rir pra não chorar. E se você leu esse desabafo até aqui, obrigado.

10 comentários:

Claudia disse...

Oi,
Você deixou um comentário no meu blog.
Vim aqui ver como seria o seu e me deparei com um texto muito bom!!! Muito bem escrito em conteúdo e forma.
Parabéns!
Abraço.
Claudia

Claudia disse...

Ah, e comentando sobre o texto. Hum, um pequeno comentário. Ainda estou também presa na inércia. Não entrei no clima natalino. Parece que há cada ano o natal perde um pouco do brilho que tinha quando eu era criança. Não julgo isso ser bom ou ruim, só diferente. =)
É isso.
Claudia

Anônimo disse...

Olha, descobri que vc curte Los Hermanos!hehehe...bom demais!
Claudia

Alves disse...

Raul,Compras!
Eh,eh...
Desliga esse motor camarada!

Sam disse...

Como diria machado de Assis: "A gente mata o tempo, mas é ele que nos enterra".

Raul disse...

Alves: desligar o motor do trabalho até que dá cara. O problema é o motor do meu curso...

Sam: Ótima definição, he he.

Fernanda disse...

Sabe, Raul, eu me desesperei qdo, no dia 14 de outubro, eu entrei num shopping e já vi tudo enfeitado para o Natal. Me dá uma angustia. Uma sensação de que não há tempo para mais nada. Eu gosto do recomeçar dos anos mas, realmente, essa obrigação de confraternização, espírito natalino, de compras já não me agrada. Era tudo melhor qdo eu era criança...
Abraços!

Paula Ribeiro disse...

este ano eu não ajudei na montagem da árvore e não saí louca em busca de presentes. a maioria dos meus amigos também não fez nada disso, o que traz a pergunta: como será o natal quando nós formos os 'adultos' oficiais?

e eu me esqueço da vida por demais. aff.

beijos

Nine disse...

Não sinto o cheiro de rabanadas da mamãe e minhas meias ainda não estão esperando a visita do papai Noel. Algo estranho no coração. A decoração natalina de Brasília deve estar muito fraca esse ano, ou suas luzes estão tristes. Ou pode ser um aviso de que o espírito natalino não pode ser percebido no "piloto automático"...

Enfim! Temos alguns dias para sentirmos o natal chegando, Raul! Boa sorte pra gente!!!

Beijitos!

Raul disse...

Tomara que a gente consiga, Nine...tomara.