domingo, 20 de julho de 2008

Dou-lhe uma, dou-lhe duas...

Numa conversa recente com meu amigo Alves, falávamos sobre esse “fenômeno” pelo qual passa a indústria fonográfica mundial. A necessidade da produção em série para fazer funcionar a máquina mercantil da arte. A necessidade de haver música comercial em todos os gêneros existentes. O cuidado que NÃO se tem ao se rotular a música e o cuidado precisamos ter com os pequeninos, para que eles tenham o privilégio de experimentar, junto com o que lhes é oferecido hoje, um pouco dos sons que fizeram e fazem nossa cabeça. O que é comercial e o que não é? Tudo que é comercial é lixo? O texto abaixo (apesar das piadinhas) trata seriamente de um caso específico relacionado a essas idéias.


PROTESTO

É realmente incrível o poder de apropriação que a indústria exerce sobre o artista, e pra ser mais exato, sobre a arte de um modo geral. A modinha de lançar álbuns póstumos de artistas consagrados deve incomodá-los onde quer que eles estejam. Os exemplos são incontáveis: Cazuza, Cássia Eller, Raul Seixas, Gonzaguinha, Pixinguinha, Tom Jobim, Vinícius e é claro, o campeão - Renato Russo. Imaginem vocês que a última desse pessoal foi lançar um álbum do artista com as demos de uma gravação dessas que a gente faz em casa, pra não esquecer a música, no formato voz e violão, feito pelo próprio Renato em meados de 1982. Eu aposto com qualquer um que se o músico estivesse vivo isso não aconteceria em hipótese alguma. Primeiro pelo nível técnico da gravação, absurdamente ruim. E depois pelo fato de o álbum, além de não trazer qualquer novidade, ser batizado com o nome de “O Trovador Solitário”!?.

O coitado deve se retorcer de ódio no caixão só de pensar que pegaram aquelas suas fitinhas K7, guardadas ali na última gaveta do seu guarda-roupa, e as transformaram num CD que vai encher o bolso de uma galera! Sim, porque os fãs de carteirinha (que todo mundo sabe: não são poucos) vão comprar o disco e vão achar lindo “Faroeste Caboclo” começando num tom e terminando em outro. Não por causa de uma mudança de tom natural na música, mas por causa da distorção incorrigível da fita demo.

Que diabos levam uma gravadora a lançar um disco com as mesmas músicas que já saíram em outras quatrocentas e trinta e sete mil coletâneas lançadas anteriormente? E pra piorar numa versão violão e voz de quinta categoria? Se a intenção era difamar Renato Russo e acabar com a boa lembrança que ainda temos dele tudo bem. Demorei pra entender porque não estava bem explicado.

É revoltante ver gente fazendo dinheiro com a arte alheia depois que o verdadeiro artista já foi dessa pra melhor. É gente vendendo as cuecas usadas (e não lavadas) por artistas antes de morrer. Gente pedindo uma fortuna por um pequeno pedaço de papel higiênico que aquele ídolo pop usou pra limpar o rabo antes do seu antepenúltimo show. Gente se enriquecendo com leilões de bugigangas nas quais artistas encostaram por um milésimo de um segundo uma vez na vida. É justamente aí, nesses atos de suposta homenagem, que reside toda a falta de respeito com quem fez história.

Hoje em dia, sobretudo a nível de Brasil, tornou-se muito difícil “a vida” de pop-star-defunto.

7 comentários:

paula r. disse...

então. infelizmente esses lançamentos póstumos normalmente funcionam apenas como caça-níqueis. a indústria fonográfica está a um passo do desaparecimento e parece não ter conseguido achar um novo caminho para driblar a popularização dos downloads pela web afora. mas enfim, nem gosto de renato russo ;)

.Noites que não dormi. disse...

eu estava pensando nisso esses dias, sofro na pele esse tipo de coisa porque sou fã de carteirinha do Cazuza, e quando acho que já tenho tudo, surge um livro das semelhanças e diferenças entre ele e o Renato Russo, um cd com apenas uma música que não tenho, enfim... Tento me controlar, mas acabo comprando. Acabo contribuindo para a palhaçada. Sem contar que isso banaliza o artista, o reduz a "um cara que morreu". Tanto Cazuza como Renato Russo se estivessem vivos, hoje, teriam o mesmo espaço na mídia que Frejat, Titãs, Engenheiros do Hawaii e cia ltda têm...

Raul disse...

Verdade Paulinha, a indústria fonográfica parece estar mesmo com os dias contados. E o fato é que esse lance de download não tem fim. E pra ser sincero eu acho essa história uma maravilha.

Raul disse...

Concordo com você Laís, mas imagino que se Renato estivesse vivo ele talvez estivesse lançando discos de versões remix de canções em italiano ou qualquer outra coisa vendável bem diferente do som da verdadeira Legião Urbana.

Mas que ele era um cara foda, isso ele era.

Alves disse...

Até um tempo atrás eu curti muito a Legião... Depois não tive mais saco. Acho boas as letras e músicas, mas não consigo mais ouvir!
Acho que se o Renato estivesse vivo ele estaria morto...
Ré,ré!

paula r. disse...

raul, no mundo dos blog você é um confetinho de excessão =)

Raul disse...

he he he... só você mesmo, Paulinha.