sábado, 26 de janeiro de 2008

Xico Sá

E Xico Sá, fala pra "F"*... Um papo proveitoso!


Jornalismo embaranga

Rough cut da entrevista com o Xico Sá que sairia na F#5. Não está editada, acho que só fiz uma primeira revisão, tem os intervalos entre as trocas de fita discriminados e tal. Portanto tem quase tudo que a gente conversou. Pra ser honesto com vocês tirei um parágrafo porque não sei se o Xico queria que fosse em off e tal. Apesar do que digo lá no final do papo, acho que essa superou a do Fausto. Presentes o corpo editorial da F e a Marsílea, nossa gloriosa faz-tudo. Conversa gravada no bar Mangue Seco, com muitas cachaças e caranguejos, 10/06/2006.

Leo - Mas então, bananeira, cactos.. teve alguma outra etapa antes?
X- Depois veio cabra, caprino, porque eu era um otário. Os caras comiam porca, égua. E cabra é um bicho meio terno, que fica meio quieto no canto, esperando.. você passa a mão na cabeça e ela vem, não tinha muito trabalho. Eu era contra isso de sexo que tinha que suar e ter um trabalho da porra. Eu comia essas coisas que não davam muito trabalho, bananeira, cabra. Por isso que eu não comia mulher, que dava um trabalho da porra (risos). Eu fui comer uma mulher com 15, 16 anos, eu digo mulher conquistada com minhas próprias forças, porque eu comi puta depois. Foi bananeira, cabra e puta. Mulher foi quarta instância (risos).
Arnaldo - E troca-troca, rolou?
X- Claro que rolou. Tinha uma coisa escrota do troca-troca que nego fazia ... o grande drama do troca-troca é quem vai comer primeiro. Claro que quem come primeiro vai embora (risos). Não tem a menor chance de não ir embora, mas rolou pra caralho. Isso era num lugar chamado Sítio das Cobras – o nome é foda, emblemático- isso é perto do Cariri, perto do lugar em que nasci. Meu registro está todo errado, está como se eu tivesse nascido no Crato em 1964, e eu nasci em 1963. E eu não nasci no Crato, nasci em Santana do Cariri, nesse Sítio. Meu pai foi me registrar com 9, 10 anos de idade. Só quando foi me botar pra escola, aí errou tudo, hora, data..... Graças a Deus eu não posso fazer mapa astral (risos), me livrei da merda que alguém pode me dizer. Mas tá tudo errado, nego não ligava.... não tinha bolsa família. Agora tem que fazer o registro no dia seguinte ao nascimento, pra pegar esmola federal.
Arnaldo - O recenseamento nem chegava lá?
X- Tinha mas não importava... meu pai mora nesse mesmo sítio até hoje, ele nem tem carteira de identidade. Fomos morar em Juazeiro, mas ele não se adaptou um segundo da vida lá. Foi com a gente pra que pudéssemos estudar, largou minha mãe sozinha... ele dizia: "eu vou pra um lugar que chega conta pra mim?". Meu pai nunca pagou uma conta, velho.
Allan - Gênio!
X - É, mas vai dizer pra minha mãe que meu pai é gênio.... minha mãe o acha um escroto filho da puta.. são as razões dela, de mulher. Ele nos deixou em Juazeiro e eu tive que cuidar da porra toda quando completei 18 anos. Ela o acha um escroto, mas eu acho ele um gênio.
Allan - Você é o mais velho?
X- Sou. Tive que cuidar dos meninos, fui vender cereais e odiava isso. Até hoje eu odeio cereais brutos, aquelas sacas de pesar pra vender. E aquela porra de embrulhar? Eu odiava essa porra.
Marsílea - Quantos irmãos?
X - Sete. São seis e mais um menina que minha mãe criou.
Arnaldo - Se fosse mais um homem seria lobisomem, é isso?
X- É, seria....
Arnaldo - E você começou a trabalhar com jornalismo sendo consultor sentimental?
X - Comecei numa rádio de Juazeiro, chamada Rádio Vale do Cariri, que era um cara vizinho meu, um locutor, chamado Jevan Siqueira. O cara tinha um programa chamado "Temas de amor" às 22horas. Eu tinha 14/15 anos.
Leo - Mas isso foi depois da cabra, da puta? Quando foi isso?
X - Nessa época eu morava em Juazeiro, mas voltando ao sítio – que eu vou até hoje, porque rola uma afetividade foda. Isso foi antes da mulher, na puta, antes da mulher.
Leo - Quando você era conselheiro?
X - De 14 pra 15 anos eu fazia essa porra, mas eu não sabia o que era uma mulher e aconselhava homem com mulher. Apesar de nunca ter uma mulher na minha frente... Se fosse " Conversa com as cabras" (risos) ... "Temas de amor", mas amor de quem? Homem com bananeira? Homem com cabra? Eu não tinha a menor moral, era ficção pura. Na verdade eu fiz um poema, tinha uma mulher vizinha a nossa casa na rua Santa Luzia, em Juazeiro, chamada Conceição. Eu fiz o poema e mandei pro cara da rádio. Essa mulher era daquelas balzacas de interior que não dá pro cara, segura a buceta assim, 50 anos... Era o Nonato, um cara pedreiro que queria comer ela e ela não dava nem fudendo. Eles namoraram duzentos anos, aqueles namoros de interior. E eu fiz uma croniqueta, uma crônica, sobre a história de Conceição e Nonato no sofá. Como eu era vizinho do cara, eu falava em ajuda-lo no programa. Eu era doido pra comer a filha dele, Rosângela, que era gostosa. Depois ela abriu uma boate em Juazeiro chamada "dancing days", e a mulher dançava pra caralho e era muito gostosa. Tinha um irmão meio louco. Acho que tinha um filho dele querendo comer minha irmã. Era um incesto moral de interior. Mas essa família me interessava muito.
Arnaldo - Foi a primeira vez que você trabalhou com jornalismo então? Esse foi o link?
X - Foi, começou nessa história. Aí fui pro Recife porque nessa região do sul do Ceará, na minha geração, nego não tinha nenhuma relação com Fortaleza. Eles iam pro Recife. Era uma questão de afinidade e tinha uma coisa histórica, que em 1914 o padre Cícero brigou com o governo do Ceará e o sul do Ceará, o Cariri ficou meio uma Catalunha louca. Até hoje nego bota bandeira na porta defendendo a independência da região. Hoje nego também vai pra Fortaleza, mas tinha uma coisa.... Você pega os caras de Miguel Arraes, e todo mundo ia pra Recife e não pra Fortaleza. Juazeiro tem 70% da população não-cearense. É pernambucano, que é da minha família. Meu avó foi pra lá porque tinha uma briga em Floresta, de Novaes e de Ferraz e ele não queria que continuasse a merda com os filhos, então os levou pro Cariri.
Arnaldo - Eram duas famílias, Novaes e Ferraz?
X - É, eu sou Novaes. Meu avó levou a família para não continuar a merda. Aí teve que entrar a bosta de honra escrota de machismo ridículo, aí teve que voltar pro lugar. Deixou os filhos lá e voltou pra dizer que é homem. Essas coisas escrotas e que rolam mais ou menos até hoje. Hoje um dos meus maiores amigos é Kéops Ferraz. Nos encontramos um vez em São Paulo e comentamos que se tivéssemos lá teríamos nos matado sem saber. É meu maior amigo, só pra mostrar a imbecilidade dessa porra.
Arnaldo - E você começou num jornal de lá?
X- Não. Comecei a escrever essas porras de programa rádio.... Lá nego quer andar também, que é a melhor coisa do mundo, sair do lugar em que nasceu. Aí fiquei lá em pensão, depois fui pra casa de estudante. Melhor quando eu fui estatizado, tudo bancado pelo governo federal, virei um "Xicobrás". Era bandejão público, tinha bolsa na faculdade. Eu tinha uns 18 canos e era do caralho porque eu era um cidadão estatizado. A gente invadia a reitoria quando a comida piorava, era uma guerra fodida e do caralho, que nego hoje deixou isso muito barato. Quando o cara é preso não cobra uma regra de civilidade? Porque também na hora de educar, né? Hoje nego mata qualquer um e quando tem ficha na polícia já é desculpa pra matar. É uma escrotidão de Estado assassino filho da puta. Eu peguei, pelo menos, um Estado bancando meus peidos, meu pão com ovo de manhã, minha escola, minha existência. Só fui pra faculdade graças a essa porra, e era o mínimo que se cobrava na época. Hoje nêgo é cuzão, basta o cara roubar um galinha que já justifica ser morto. Uma escrotidão sem limite. Então graças ao Estado eu tive esse "Xicobrás" e foi do caralho. Pude estudar e beber cachaça com os caras interessantes. Porque a faculdade era uma merda, mas o encontro foi do caralho. Era Comunicação, mas eu também quis fazer Sociologia.
Marsílea - E quem era essa galera?
X- Bom, de quem está vivo... estudei com o Fred 04, que era da mesma turma, Renato L., que era do caralho, e um bocado de vagabundo assim... Meu grande ganho era na hora de beber cachaça, fumar maconha e andar com os caras e as meninas foda pra um cara que vinha matuto do interior. Em termos técnicos não aprendi porra nenhuma, mas tive uma história do caralho com pessoas foda. Bebia, fumava, mas pensava e lia coisa boa, e tirava onda. Fazia um jornal na época que se chamava "A peta", que é mentira num português arcaico. E era foda. Era um jornal de quadrinhos e textos doidos, esse foi o grande ganho, essa história de convivência. Não é a porra de Iluminismo, de faculdade de ter aprendido com o cânone, com a academia.
Arnaldo - Mas aí você virou um jornalista investigativo...
X- De merda inicialmente pra ganhar a vida. E ainda sou vez ou outro, ou quase sempre. Eu virei qualquer coisa do que tem que virar pra ganhar a vida.
Leo - Você foi direto pra redação?
X- Eu era um homem estatizado, eu era um "Xicobrás", então tive que pagar um pouco do cu público. Trabalhei um pouco na assessoria da universidade, na biblioteca... roubava livro pra caralho (risos).... Era aquela vida de bolsista de faculdade, aquela roubalheira, aquela coisa, meio pagando, meio consciente disso. No jornal da universidade encontrei uns caras bons pra caramba, bacanas. E depois fui ser revisor numa gráfica. Quando cheguei no Recife fui revisor numa gráfica chamada "Comunicarte". Foi quando eu adquiri esse pára-brisa aqui (aponta os óculos, risos), revisando coisa em corpo 6, balanço de usina em corpo 8. Primeiro isso, depois fui para um jornal de esportes chamado "Tablóide esportivo" que era uma puta de uma experiência legal, que era uma cooperativa dos caras mais antigos com cinco moleques, eu na época, mais cinco caras que tinham uma grana. Eu fiz uma história bacana, eu assinava a coluna chamada "Mamadu Bobó", que era um jogador africano. Era meio que tirando onda com o jogador. Me lembro do Betão, que jogou na lateral do Inter. O nome dele era Roberto Taylor (risos), que o pai era louco por Hollywoody, aí eu fazia essa coluna que era meio de tiração de onda com o jogador. Eu era setorista, cobria o Náutico, o Sport.
Arnaldo - E qual era o seu time?
X- Na verdade eu só torço pelo Santos, mas como eu mudei muito de cidade, em cada lugar que eu chego eu vou muito pra estádio, sou Sport no Recife, Casa em Juazeiro. Mas meus tios foram embora pro litoral paulista nos anos 60, então sou Santos. Eu odeio futebol, eu gosto do Santos, mas odeio Copa do Mundo, acho uma escrotidão. Eu odeio tudo que não seja o Santos, nem vejo os outro times. Acho ridículo os embates de futebol, Copa do Mundo.. gosto ou meio várzea ou Santos, não consigo gostar de outra coisa.
Arnaldo - E depois do jornalismo esportivo...
X - A polícia do "Jornal do Comércio".
Arnaldo - E naquela região é sinistro, né?
X - É uma bosta... como eu já tinha a viadagem da literatura, procurava ver Nelson Rodrigues e tal. Eu já tinha lido os caras, então já ia com esse filtro escroto e vagabundo, do classe medismo de ver uma certa arte. Mas tomar no cu a minha arte! Também tinha as matérias de comer gente, voltando o assunto. Era melhor dizer pra menina "é, Nelson Rodrigues fez polícia...", mas era um H do caralho, era um caô sem tamanho. Funcionava, mas era fraude pura. Eu devia ter uns vinte e poucos anos, acho que era pré-Miguel Arraes, antes dele voltar do exílio. Mas nada disso com precisão. Aí vocês vão ter que pesquisar no Google. Alias, foda-se o Google! Não me venham com essa senão eu não posso mentir, ô viado (risos)! Só dou essa entrevista com a permissão livre da mentira. Eu sou um homem flexível, minto pra caralho.
Arnaldo - Depois você virou um cara...
X - Virei um idiota (risos). Tive uns acertos de matéria por sorte e cachaça. Mas eu não tinha essa obsessão jornalística, eu queria ser um escritor, nunca quis ser um repórter.
Leo - Mas mesmo nessa época você continuava escrevendo, você tinha coluna em algum lugar, produzia alguma coisa?
X- Mas nego vai roubando sua alma quando você vai entrando pro mundo.. você vai vendendo sua alma, até com a própria desculpa da sobrevivência, não tem jeito, você vai sendo levado. É um idiota e burro, e tá numa redação. Porque jornalismo é a arte de emburrecer o homem e a mulher. É a arte de enfeiar a mulher e emburrecer o homem. Então essas meninas lindas chegam na redação e com dois ou três pescocinhos elas estão horríveis, cara (risos). Mata qualquer possibilidade de existência mais ou menos inteligente e de gostosura (risos). E não é a coisa física de estar gordo, isso não tem a menor importância. É o olhão de emburrecimento de redação. Notícia, plantão... Isso é uma idiotice. Por isso eu não quero ter filho, se for pra virar jornalista eu mato ele antes. É sério! Os caras se acham os fodões, mas são os mais burros da humanidade. Eu falo porque gastei minha alma da redação.
Marsílea - Mas você sentia isso no inicio?
X- É igual a cachaça, você sabe que derruba mas vai indo... É escrota a pretensão, o moralismo do jornalismo, a forma como acha que vai resolver o mundo. Não tem nenhuma qualidade no jornalismo, talvez seja a única coisa sem qualidade, velho. Eu tenho um primo que conseguiu enriquecer com merda, aqueles limpa-fossa. E todo mundo tirava onda com ele. E eu tô escrevendo uma novela, um romance, tomara que um dia eu consiga, querendo ser um Charles Dickens dos pobres, uma coisa assim, o cara ia na boléia com o cara e o pai metia o suga-merda lá. E o lindo é que a mãe dele tinha prisão de ventre (risos). E o cara enriqueceu com a bosta. Eu tô escrevendo uma coisa a partir dessa história do meu primo.
Leo - Você lê jornal?
X- Eu leio pra enganar os próprios jornais, mas eu não aconselho pra nenhuma família (risos)... afaste o seu filho da faculdade de jornalismo porque é emburrecedor. É melhor ser Marcola do PCC do que ser um jornalista. O jornalista não vai ter uma grande narrativa, não vai ser um escritor. Também não vai poder contar uma grande história, não vai poder porque o dono não vai deixar. Ele vai ser merda.
Allan - O mais escroto dos jornais é a pretensa imparcialidade...
X- Nunca houve isso, cara. Você escreve o que o dono quer, em qualquer lugar. No Pharol de Petrolina, na Vanguarda de Caruaru, na Folha de São Paulo, na Folha, no Estadão, Veja, você escreve o que o cara quer. Aí tem as brechas, quanto mais importante você é, mais você escreve o que o patrão quer. Por isso eu resolvi ser mais merda, depois de duzentas demissões, eu tenho o caminho mais confortável hoje que é ser menos importante para os jornais. Ou como uma tira, é menos importante, mas acaba dizendo mais do que quer. Ou faço uma crônica espremida no caderno dos esportes e acabo dizendo mais da minha vida e existência... porque você é mais livre. Quando você é mais importante, que é a ilusão de quem é editor, não sei o quê, você vai tomar no cu e escrever o que nego quer e diz. Carlos Heitor Cony escreve o que mandam, velho. Ou então levam pito e deixam de escrever.
Arnaldo - Quando você foi para o jornalismo já tinha uma singularidade literária e tal, e boa parte dos seus ídolos, Graciliano, etc, também tramparam em jornal. Graciliano fazia revisão...
X- É um cara que gosto pra caralho.
Arnaldo - Como você conciliou isso, trabalhar no jornal e ter os ídolos muito mais independentes?
X- Não tem escolha é meio entre a cachaça e a pobreza, você vai. Não tem trajetória. É lindo depois que morrer ler a biografia, mas não tem escolha porra nenhuma. Não é nada glamouroso, é uma merda.
Arnaldo - Não tem nenhum orgulho dessa época, das coisas que você conseguiu?
X- Claro que não.. mas me fez ganhar dinheiro. A entrevista com PC Farias...mas nada disso serve pra nada. Sabe o que vale nessa porra de existência? É a narrativa de aventura, é o Gulliver que sobra, é quando você espreme tudo e tem uma narrativa de aventura da vida, aí é Caninos Brancos de Jack London, é você perdido numa selva qualquer, não é objeto de um jornalista. No tempo de PC Farias eu fui pra Maceió e cheguei a ficar quatro meses lá. Aí, tava ali no Othon... a minha missão era para a Folha de São Paulo...
Leo - Não tinha uma coisa de ficar meio dischavado, pra não despertar muita atenção, como era?
X - Como eu tinha acesso ao cara, por razão louca de cachaça...
Leo - Conta primeiro a história, como você conheceu o cara?
X - Eu conheci porque quando a imprensa ficava atrás de advogado, de fulano Oficial de Justiça, eu fui pra Maceió e me enturmei com o mordomo. Diziam que eu comia o mordomo, Joel. Porque ele tinha uma motocicleta e eu passeava com ele em Maceió, o cara me falando na brisa ao vento... (risos). Dizem que ele virou maître num hotel em Brasília... o que é a merda do repórter de hoje, é que eles desprezam esse oitavo escalão. Eu colei nesses caras lá, nos guardas, nos cachaceiros que moravam perto do PC, nas lavadeiras, faxineira que trabalhava com ele. Chegar no Joel foi um salto, o mordomo.... a Folha mandava não sei quantos mil caras pra Londres, eu poderia ter sido oportunista e pedir pra ir também, alegando que PC estava lá, ou pedir pra ir não sei pra onde... eu tive missão também pra Tailândia e Bangcoc, as terras da massagem de doze mulheres... tentei ir do aeroporto para o hotel e foi a coisa mais difícil da minha vida. Eu falando o inglês do Crato (risos), os caras sem falar inglês nenhum... aí eram dois irmãos taxistas e eu tentando ir pro hotel, e os caras me levando pra putaria. Até uma hora em que eu tive que dar uma olhadinha, né? Não tinha como não comer gente.. era o único lugar que não tinha como não comer gente. Tudo que Crato não me deu, Bangcoc deu, velho (risos).
Arnaldo - Mas e o PC?...
X- Eu tava falando dessa coisa de não acreditar em fonte, hoje é só Google e banco de aspas. Ninguém gasta sapato, ninguém vai pra rua. E se você chega contando história da rua, nêgo não dá bola. Os editores idiotas perguntam o que isso tem a ver com a realidade, quando é a realidade que foi esquecida. De verdade, eu acho que o jornal vai acabar, eu torço por isso. Antes do papel higiênico eu limpei muito cu com jornal. Eu torço pra que o jornal acabe porque não tem mais sentido... Você pega os portais.. a não ser Allan, Adão, Laerte e o horóscopo, não tem mais nada... A notícia tá no dia anterior e a capa, a foto, é a mesma. Ou o jornal encontra um meio de contar história, que ele perdeu a vontade de contar história, de botar o repórter pra viajar. Hoje jornalismo é de agenda, o cara que vai ser ouvido na CPI às 16 hs. É projeto de agenda, não tem nada que signifique a vida real de nenhum de nós, é agenda.
Arnaldo - Aí você começou a se juntar com o pessoal do mangue beat e aí todo mundo começou a ter mais projeção pro resto do Brasil...
X- Não, não.. nem eu nem eles. Isso foi porque eu morava em São Paulo e os caras iam na minha casa. Eu ajudava, no que podia, na assessoria de imprensa. Eram amigos, eles chegavam lá em casa pra ficar lá. Minhas namoradas ficam putas porque a gente não podia mais fuder direito.
Leo - Mas você já os conhecia antes?
X- Fred, o Chico eu conhecia um pouco e depois... era do mesmo conglomerado do crime.. na boa, eu caí no jornalismo porque não tinha outro jeito de ganhar dinheiro, mas eu queria ser um escritor louco. Eu queria ser um Henry Miller, pra dizer o mínimo. Jornalismo era o caminho, mas eu não tenho uma construção de carreira jornalística, eu não acredito nisso, caí nisso, e ganhei dignamente, comprei uma casa pra minha mãe lá em Juazeiro, me agradece até hoje, isso foi do caralho. Comprei muito ácido por conta de bons salários, mas nunca foi a minha... até hoje, voltando lá pra consultoria de rádio, eu escrevo conselho pra revista UMA, pra revista de mulher, pra ganhar dinheiro, mas não é jornalismo. Se eu pudesse ter um reencontro com o jornalismo eu mandava tomar no cu. Pobre tem duas profissões literárias no Brasil, jornalista ou advogado. Mas escolha, nunca. Eu queria ser Henry Miller e me fodi. Você acha que eu queria estar em plantão na casa do PC ou na porta da polícia federal esperando não sei o quê? Não.. eu queria escrever "Trópico de câncer". As biografias são editadas e limpas, mas a vida é só angústia e frustração, velho. Aí vem um filho da puta como o Ruy Castro e deixa todo mundo lindo e gênio. Mas é tudo escrotidão e cachaça. A vida é confusão, é merda, é Pimenta Neves. Aí depois vem as edições, o calendário e resolve qualquer bosta, as histórias ficam lindas. Isso serve pra todo mundo. Não há biografia boa, ela é salva.
Arnaldo - Aquele Nova Geografia da Fome é do caralho, mostrou pro jornal que você pode fazer uma matéria investigativa, barata...
X - Tem dias em que só me sinto bem quando acabo de trabalhar e vou tomar minha cerveja tranqüilo, olhar uma mulher... Eu não tenho orgulho da escrotidão. Tem hora que eu acerto uma frase, e é do caralho. Normalmente bêbado e de madrugada, de manhã eu já acho uma bosta. Todo homem é gênio de madrugada. O único momento de gozo, velho, é quando uma mulher toca uma punheta ou esse segundo de auto engano bêbado, depois vai ser uma bosta e ninguém vai ligar. Mas eu acho lindo essa hora da merda, por isso comecei a acreditar mais no auto-engano, escrevendo algo às quatro da manhã, bêbado achando que aquilo é a História da Infâmia do Universo, aí no dia seguinte você vê que é uma merda. Tudo nessa gana de achar que é genial e depois desconstruir, porque é você ou um outro que vai fazer isso. Eu acho que não tem engano mesmo, é tudo angústia e aflição, a vida vai ser sempre isso. Salvo o quê? Buceta, puteiro, cachaça. Aí a merda, a existência é tão filha da puta que não dá corpo pra você segurar isso para o resto da vida. Aí você não vai mais atrás da buceta, da cachaça porque tem artrite. Eu gosto muito de um anúncio de artrite que é um tiozinho balançando uma criança no parque, aí num momento ele sente a perna. A vida é isso, um anúncio de artrite, velho.
Allan - Eu li uma entrevista que você estava transando com uma menina que dada ao contorcionismo e numa câimbra ela achou que você era um acrobata...
X- Eu acho que a grande novidade do mundo hoje é falta de potássio e broxada. Que novidade há na grande foda? E essas meninas novas, fazem tudo que elas reclamavam da gente, deixam toalha molhada em cima da cama, fazem uma bosta geral no seu quarto. Mas nesse dia aí eu tava com uma câimbra monumental, aí levantei a perna e desci como naquele filme do Hitchcock, "Intriga internacional", e aí foi a consagração, mas o que era..
Leo - ..você gritando de dor...
Arnaldo - E aquela cena genial do Beto Brant no cinema, do filme "Um Crime Delicado"...
X- É velho, aquilo eu gostei muito de fazer. Eu virei o homem-baga do cinema nacional, né? Os amigos chamam, vamos beber...
Arnaldo - Você é amigo de todos esses caras que estão fazendo um puta cinema agora....
X- É.. agora eu fiz um punheteiro, dessa eu gostei. Eram uns dez punheteiros e nenhum levantou o pau, inclusive eu (risos)...
Allan - Era pra bater punheta mesmo?
X- Era, a gente tentava... mas ninguém conseguiu. Era uma cena, e o Cláudio Assis, que é um ignorante.... O filme é o "Baixio das Bestas", é a história de uma menina de um posto de gasolina que o avô vende pros caminhoneiros baterem uma punheta pra ela (risos). Ele cobra um real.... Pô linda, depois até bati uma punheta para ela, já em casa, mas na hora porra nenhuma. Era eu e mais uns nove animais lá do Recife e a gente tentando e envergonhado, com a mão dentro da calça, mas sem querer mostrar o pau, maior merda, velho. E a mulher lá, linda, linda, gostosa... E era no quintal de uma Igreja. Agora veja o animal, colocou a menina lá no.. no nordeste chamamos de oitão da Igreja, nua, linda. Quando ela tirou o roupão, uns peitos da porra, buceta, tudo direitinho e os dez lá... a gente lá... já tinha bebido pra caralho... dez e nenhum...
Arnaldo - Aquela piada do Adão, "falência múltipla dos órgãos"....
X - Na ficção a gente tava pagando ao avô dela pra pagar punheta, erámos dez... e nada....
Leo - Mas essa cena ficou no filme?
X- É, vai rolar uma punheta frustrada. Mas é linda... não se engane com o que sair no cinema (risos), eram dez homens broxas com uma mulher gostosa da porra, muito gostosa... Veio da Paraíba. O problema é que a gente é amigo do pai dela, eu e Claudão. De madrugada ligamos pra ela nos desculpando, dando a nota fúnebre, venho por meio desta, dizer que não foi culpa de vossa senhoria a broxada monumental em público (risos)... Foi a pior coisa que eu fiz depois de 8 ½ de Fellini (risos).
Arnaldo - E o blog ("O Carapuceiro"), você manda todo dia... você acha legal essa coisa?
X- Tento que é pra recuperar o tempo da bananeira perdida..
Arnaldo - É lugar pra comer mulher então?
X- Não, essa coisa de comer mulher não é tão objetivo assim. É que eu sou tão feio que quando eu como uma mulher vira notícia (risos). Se um cara lindo come uma mulher é um rodapé de página, mas se o feio come uma mulher e ela é linda, aí é manchete.
Arnaldo - Você já comeu alguma celebridade, alguma mulher que seja assim...
X- Comi porra nenhuma. Eu odeio celebridade... E dá azar comer uma mulher pra quem você já bateu uma punheta antes (risos)... eu nunca fiz uma punheta pré-crime, porque dá um azar da porra.
Arnaldo - Li que você gosta de namorar.... você é um cara pra casar?
X- Eu caso, mas eu não sei explicar...
Leo - Mas você fala que é pra casar, diz que quer convivência... casamento tem futuro?
X- Tem no sentido de eu gosto de você pra caralho, vamos fuder e beber cachaça junto no boteco, ler umas coisas....
Leo - Mas até que a morte nos separe não existe?
X- Não...
Allan - Você teve um momento, começou aquela coluna Macho na Folha e aí ...
X- Essa coisa de eu no jornalismo é um engano duplo, de quem me contratou e de quem eu fui servir, porque eu nunca fui um jornalista de verdade. Eu caí nesse mundo e aceitei, mas eu nunca quis ser um repórter, um jornalista. Quando eu vim de Juazeiro eu queria ser apenas um filho da puta, escroto e bebedor e que exista de forma humana. Acho que no jornalismo os caras que adoram ser denuncistas... esses caras não têm moral pra porra nenhuma. Eles roubam uma nota e são tão escrotos quanto o Lula.
Arnaldo - E jornalistas que você acha exemplares?
X- Tarso de Castro que já morreu, Fausto Wolff, esses caras honrados, e claro que falando isso você não vive, tendo quarenta e poucos anos. Nêgo desconfia, mas como eu tô cheio de trabalho pra fazer, foda-se. Mas eu acho que esses caras são foda. Eu sempre fui um bundão, de uma certa maneira, de quando no estado de miséria, eu negociei a vida inteira... Mas eu invejo esses caras que dão porrada. Eu já escrevi pra revista de cachorro, gay, mulher, doido, menino... Mas tem uma hora em que se você pudesse não escreveria. Hoje mesmo eu acordei numa ressaca miserável e tive que mandar a porra de uma crônica da Copa pra Folha. Eu não sabia que porra ia escrever. Eu tinha dado uma volta com o Mário Bortolotto, tinha encontrado o filho da puta lá no Planeta, lá embaixo.. aí eu não me lembrava como tinha encontrado com ele, então vi uma porrada de bandeira do Brasil e escrevi: "a pátria de shortinho verde-amarelo" ... É uma merda ganhar a porra dessa existência e os escrotos não falam. O grande épico da humanidade, o grande Ulisses é não encaretar, essa é a maior dificuldade do mundo, porque a gente cai numa cilada. Primeiro você se acha louco, acorda e se dá conta que mal consegue escrever o texto... Mas ao mesmo tempo o que me move, o que me faz escrever de alguma forma é toda essa putaria. Então a gente vai morrer disso, desse dilema escroto. Uma Quinta eu escolhi não beber, que é um momento raro durante séculos, aí mandei meio Lexotan e já tinha mandado uns quartinhos – porque eu acho que o bom da droga é você ir pras drogas menores – pra não beber. A gente tem q respeitar nossas próprias agonias, nossas próprias angústias, e é muito difícil respeitar e ter coragem pra isso, porque implica outra pessoa, filho, existências... é uma merda.
Arnaldo - Você inclusive falou que é contra o Viagra...
X- Se a mulher não me respeitar pela broxada ela vai me respeitar porquê (risos)? Existem mulheres malas pra caralho, nada que uma grande broxada não resolva também (risos). Uma broxada monumental resolve muita coisa pra sua vida, você manda embora muita coisa que você não quer. Queria agradecer a vocês por recuperarem minha memória. Tô virando meio Proust, meio gay...
Allan - E aquela história de dar pra traveco e sentir os peitos nas costas..
X- Eu nunca dei, nunca deixei o pau entrar, mas deixei enconstar. Mas é lindo velho, peitinho aqui é lindo. Olha, o maior travesti do mundo, o mais lindo de todos se chama Marcinha, da praça Roosevelt. Ela tá na Alemanha agora, me mandou um mail dizendo isso. Essa é a mulher mais linda do universo. O que rola é a falta de medo, a diversão. Passar perto e ela mostrar os peitos, uma coisa de amor, até porque ela precisa ganhar a vida.
Arnaldo - E aquela cena do "Crime Delicado" foi com um travesti...
X- Os caras falaram que eu sou um cara da noite e que meu personagem ouve as meninas e vai pro bar...
Arnaldo - Porque nego te tira de machista, mas você, pelo contrário...beija a mão total..
Leo - É um esquema Bukowski, tudo para elas abaixarem as calcinhas?
X- Dizer isso ficou meio caricato, né? É apenas um cara que demorou a chegar nas mulheres e depois que chegou quer tirar o atraso. O sudeste em geral fala que o nordeste pega muito subsídio, eu quero o meu em bucetas. É uma escrotidão o que os caras falam, porque o sudeste também fode o nordeste, e somos escrotos, a FIESP é uma escrota, a Firjam é uma escrota, e se tem subsídio eu quero o meu em buceta.
Arnaldo - E você já foi ameaçado, já teve uma treta foda com um poderoso?
X- Tem nego que é mais poderoso, mas é anônimo. O que é perigoso de fazer matéria investigativa: empreiteiro, que não seja de grande empreiteira, que não é burro. Você pode esculhambar com o ACM por duzentas horas, não acontece nada.
Leo - Você não falou da suruba com o PC...
X- O PC, velho, que era o inimigo número um do Brasil, o cara tava lá fora, naquela coisa fudida. Mas quando eu ganhei o cara pra ter a entrevista dele, foi tomando whisky. Primeiro na cidade de São Paulo, eu cheguei e ficamos tomando whisky até às quatro da manhã, e depois disso, tanto faz ser PC, como Allan Sieber, Lou Reed, Nick Cave, virou bosta a humanidade, qualquer porra, nivela, vira a mesma coisa. A existência é isso! O que eu achei extremamente humano nele, e lindo é que num puteiro em Curitiba, eu tava atrás dele, e ele escolheu a mulher mais feia. Eu tava com duas mulheres no colo, dias galeguinhas lindas da porra, era uma morena e uma loira, pra ser meio projeto Benetton (risos). E PC, velho, pega a mulher mais feia do puteiro, rouba o Brasil e é generoso na hora de colocar uma mulher no colo, velho. Genial! A mulher toda largada.. ele me ganhou nesse dia. Há uma generosidade no fim da linha. Por isso que eu odeio jornalista, porque nunca julga a existência interna, são os caras filhos da puta com as mulheres, na rua, roubam onde puder... Mas achei de uma humanidade linda colocar uma mulher aparentemente baranga – porque não existe baranga - colocar no colo e ser feliz.
Arnaldo - Aí tem aquela frase, de que o poder é o maior afrodisíaco...
X- O poder do mundo é a buceta, velho.
Arnaldo - Inclusive, como foi aquela sua matéria no puteiro da Jeanne Marie Corner, como foi essa porra?
X- Eu tive sorte, porque a mulher é do Crato, ela podia ser minha tia, mas não é. Quando eu falei que era do Crato abriu-se a porta, o mundo. Contou muito eu ser do Crato.
Arnaldo - Você comeu as meninas?
X- Acho que todo jornalista, todo repórter é idiota, inclusive eu naquela matéria, mas o bom do jornalismo é você mostrar que por vias totalmente transversas pode narrar mais a história do que um "disse ontem o presidente.." tomar no cu, porra! É burrice ter de narrar o mundo por isso. Não é bom pra vender jornal, não é bom pra nada. Nem o caretismo gosta. Outro dia vi uma matéria do Fernando Henrique encontrando com o Serra, e o Alckmin, aqueles escrotos da Opus Dei. Eles foram a um daqueles restaurantes fodidos em que você paga R$900 por um conhaque. Quem fez a matéria não disse o que eles comeram, só estavam ali para dizer a escrotidão que eles estavam provocando, que político escolhe aquele lugar pra jantar. Aí já se mata a existência, e pode ser pra Lula, pra qualquer um. Porque você colocar essa simbologia dos lugares que as pessoas freqüentam que é a bosta, é nisso que está a história. Nem que tenha o lado careta, mas que tivesse ao Domingo uma matéria que contasse a crônica da semana de um lugar. Mas é só "disse ontem". Velho, nenhum entrevistado vai se confessar. Eu odeio essa matéria de Brasília pra Trip, eu não entrevisto ninguém, ou eu tô de lado ouvindo... entrevistar gente, você já gera a frase dele. Velho, cola na mesa vizinha e vai beber. Eu odeio entrevistar gente, eu prefiro mentir.
Arnaldo - Eu achei que nego fosse te dar porrada porque...
X - Os caras mandaram uma porrada de coisa horrorosa, mas tem uma coisa muito clássica em São Paulo que é mandar uma carta com merda. Isso eu recebi nessa matéria. Isso é um clássico, existe em São Paulo há vinte anos no mínimo. Você pode até descobrir quem é, né? Pega uma impressão digital de cu... isso é homossexualismo em estado livre. Eu amo homossexualismo, desde que eu não dê, porque no interior quem come não é viado.
Arnaldo - Mas e agora, você tá escrevendo alguma coisa pra publicar?
X- Tô tentando dar um truque, mas com muita dignidade.
Marsílea - E o seu trabalho na Editora do Bispo?
X- Eu sou sócio, não capitalista. Eu sou sócio na parte do trabalho.
Marsílea - E do conteúdo?
X- Que conteúdo? Do trabalho. Eu chego tão ressacado que nem sei se aquilo é conteúdo. Pela primeira vez na vida eu tô trabalhando com a única mulher que entende minha ressaca, eu chego seis horas da tarde ressacado e ela diz, "vamos beber mais". Essa é a mulher de verdade. Nossa história só existiria assim... Senão não teria sociedade. E ela é a coisa mais monstruosa no sentido de entender minha ressaca...
Marsílea - Vocês se conheceram num trampo?
X - Eu namorei a filha dela. A única pessoa que me deu alguma coisa na vida, uma mulher do caralho. Eu chego lá na hora em que eu quiser, essa mulher sabe o que é um homem ressacado, do fundo do coração dele.
Allan - E a gaveta do Peréio?
X- Aliás eu vou pedir ajuda pro velho. O livro é tão louco, vamos fazer algo juntos, velho. Ele (aponta o Allan) desenha.
(...)
Arnaldo - A gente brigou com o Fausto na última F. E foi uma merda, você chegou a dar uma olhada na revista?
X- Todos nós somos uns bostas de uns viados. Fausto Wolff tem um passado mais glorioso, ele tem mais razão de brigar com vocês. O cara é alguém que eu respeito, que acho .... o cara é muito foda, velho.
Leo - Mas ele tava meio amargurado com a parada do jornal...
X- Mas todos nós somos, velho. Se tocarmos a sanfona do ressentimento, velho, ela toca por duzentas horas.
Arnaldo - Mas você tem alguma bronca de algum lugar em que você trabalhou, você gostaria de falar aqui, publicamente?
X- Eu acho isso pequeno pra esculhambar com os patrões... claro que eu vou falar, com muita dignidade, se algum amigo meu me chama pra testemunhar na Justiça do Trabalho, é claro que eu vou falar, mas não vou me arvorar. Eu me acho muito mais importante que esses caras, eu como mais mulher sendo mais feio, mais pobre. Não me interessa, cara. Mas acho que ele tem razão. Dono de jornal sempre vai ser escroto porque querem ser Deus, querem o vento a favor deles, mas não é isso que acontece. O vento, velho, é a favor de qualquer um. Eles querem ser donos do vento, querem comprar a brisa.
Arnaldo - E quem são seus ídolos? Vale qualquer um..
X- Marcola do PCC, Lampião. São caras que movimentam a história, seja pro bem ou pro mal. Eu amo esses caras que mostram que a história está viva, seja os estudantes lá da França, seja o Bruno Maranhão. Esse é um grande homem, fez uma quebradeira filha da puta. Esse é um doido da Casa Grande, da burguesia que vai lá e bota fogo no Congresso. Eu amo esses caras que mostram que a História está viva.
Arnaldo - E o governo Lula?
X- Eu acho que é uma merda pro que esperavam, mas eu quero que a Opus Dei geral do Alckmin tome no cu.
Arnaldo - Mas rola uma decepção grande?
X- Rapaz, nunca um homem no Brasil fez uma campanha limpa. César Maia é o maior ladrão, Garotinho...
Leo - Você vota?
X- Eu já votei umas duas ou três vezes na vida... Eu votei no Lula no primeiro turno e no segundo não porque eu tava trabalhando. O Lula é uma merda, mas nunca direi que é um escroto. Entre ele e Alckmin.... essa Dona Daslu, voto Lula sem nem crítica, sem pensar. Eu sei que político é uma bosta. Minha crítica foi nos anos 80.
Leo - Alguma coisa salva o Lula no seu conceito?
X- Não, nada. É apenas igual a Fla X Flu, eu quero que Geraldo Alckmin se foda, só por ser por honra, pronto. Eu sei quem são meus inimigos, e esse cara não é do meu mundo, é da Opus Dei.
Leo - O Alckmin foi quem deu proteção aos seqüestradores da filha do Silvio Santos. Ele deu garantia de vida e o cara morreu duas semanas depois, no presídio.
X- Cara, vamos colocar a história do Alckmin na roda, eu tenho um cuidado da porra com o moralismo....
Leo - O Collor era um desses casos de playboy, tinha caso até de estupro..
X- Nesse caso eles seguram até hoje. Mas pra não ser moralista é isso, quando é fodido botam no cu do cabra, quando é autoridade aí tem o maior cuidado.
Arnaldo - Tem um tempo que você fala o que pensa. Em alguma oportunidade você já achou que falou demais?
X- Hoje em dia não mais, velho. Eu arrumo confusão hoje em porta de bar com segurança, às vezes os caras são até amigos, mas não é meu objetivo. Não saio de casa pensando nisso. Eu tenho uma coisa insuportável que é a tese, por exemplo, eu adoro falar que o Chico Buarque é um compositor de merda, literatoso e num lirismo chinfrim que não é muito bom. E as meninas ficam nervosas. Tenho tese da semana, das estações, eu tiro onda, velho. Eu uso óculos, não brigo fácil (risos). Já arrumei muita confusão, já apanhei muito e nem sabia se estava batendo. Nunca tive um soco autoral (risos). Em confusão de noite eu já briguei pra caralho, é um clássico da minha existência. Mas eu saio de casa pra vingar a bananeira, eu sou que nem terra de cemitério, gosto de comer gente, velho (risos).
(...) MUDANÇA PARA 3ª FITA.
X - Não quero ler nada, velho. Eu quero que você me melhorem até.. se puder radicalizar ali, me fazer mais merda ainda... Isso aqui não existe velho. Só um otário diz essa porra.
Arnaldo - Só não pode ser melhor que a do Fausto...
X- Fausto é meu ídolo... Eu amo o cara, velho...
Leo - Às vezes que a gente foi conversar com ele foram do caralho. A gente ligou o gravador.. aquele dia mais pesado... rolou uma parada mais amarga mesmo...
X- Aquela entrevista é linda, velho.. Eu li todas as entrevistas...
(...)
Marsílea - A gente queria te levar para o apartamento, mas achou que podia ficar chato.
X- Tudo bem.... filhos da puta... P.S.: fui injustiçado. Bota um P.S., vocês gostam mais do Fausto do que de mim... não, eu amei.. a seqüência é o medo e o amor pelo cara, velho. É um dos maiores jornalistas que eu admiro no Brasil, velho... Eu amo esse filho da puta, eu li tudo o que esse homem escreveu, velho....
Arnaldo - Nesse dia foi muito bom...
Allan - Foi complicado...
Arnaldo - Foram 3 garrafas de whisky... Muito bom você ver ele acelerado...
Leo - Uma pergunta que a gente não fez na entrevista, mas onde você estava quando Chico Science morreu?
X- Eu estava em Recife, eu tava com Lula no apartamento dele, perto do cara mais feio do mundo... bebendo... O Chico tinha virado um bosta porque é humano, o sucesso... vai pro estrangeiro e tal.. mas ele tinha feito as pazes com a gente, porque a gente tava muito puto com ele, e tinha tocado uma noite linda de jungle... ele era viado e gostava de jungle, eu me amarro em jungle, velho... mas a gente tava muito puto com ele, porque em Recife ninguém tem bom humor com ninguém, a gente guarda ressentimento.. a vida.. todo mundo é Fausto Wolff em Pernambuco.

* F - Revista capitaneada por Arnaldo Branco, Allan Sieber e Leonardo
Posso ACREDITAR que achei realmente engraçada aquela piada, e que eu consequentemente QUIS rir, mas não. É meu cérebro quem COMANDA todas as reações nervosas e musculares do meu corpo. E MEU CÉREBRO funciona como um motor, de forma absolutamente IRRACIONAL, respondendo a estímulos químicos que surgem devido a FATORES EXTERNOS. As vibrações sonoras da piada chegam ao meu cérebro através de meus ouvidos e são traduzidas em ATIVIDADE ELETROQUÍMICA. As regiões do meu cérebro responsáveis pela linguagem RECONHECEM o significado das palavras. PERCEBENDO que a carga semântica é jocosa, sou CAPAZ de entender a piada. Meu cérebro REGISTRA a hilaridade da piada, e então rio. Mas não DECIDO rir conscientemente. O ESTÍMULO da piada é que teve como resposta meu riso.

Temos a ilusão do LIVRE-ARBÍTRIO como uma rocha firme para fundamentarmos nossas decisões. Mas acho que somos todos vítimas de imposições inconscientes, e estamos completamente impossibilitados de interferir nos efeitos finais de uma causa. Você mesmo não quer tirar qualquer conclusão desse texto, mas ao terminar de lê-lo seu cérebro já terá formado alguma idéia a respeito e eu acho que você vai acabar comentando alguma coisa aqui.

[Essa filosofia democrática das pequenas coisas me encanta.]

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

NATURA

A cor verde condensada
de hipnotizar passarinho
me lembra um cheiro de mato dormindo.

Respeito o reino flora
pois este contém sozinho
toda cor, toda linguagem.

A árvore idosa
assume outras deficiências
perde galhos, acentua a própria paralisia.

Nada, no entanto, inspira dó.
Mais voláteis somos nós
gastando tantos sapatos
perdendo nossas folhas.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008


Ir decompondo meus vetores pouco a pouco. Tirar de mim qualquer intenção inconsciente de seguir um rumo que eu não conheça. Acreditar que é possível chegar lá pelo caminho que os homens criaram e tentar ser e estar da forma convencional.

Não poder prever e ficar mais conformado. Não poder medir e não se sentir a pessoa mais culpada do mundo. Saber que todos têm razão em seus discursos, lembrar de quando se quer ter também.

Talvez dizer tudo o que se pensa. Aceitar que prender o choro não compensa. Discutir, brigar pra valer, sair na porrada, ferir e ser ferido, pôr sangue pra fora, gritar, maldizer e ser ruim como nunca se quis. Ser ruim pra valer e poder fazer muito mal para alguém [que mereça] por uma vez nessa vida. Só pra ver se depois o remorso é realmente maior que a sensação de alívio imediato.

Ir decompondo meus vetores pouco a pouco pra saber que caminho era o que eu deveria ter tomado antes de prever medidas e medir previsões.

* Sobre fazer mal a alguém, não há qualquer pretensão, apenas necessidade.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Salvação provisória

Dentro de poucas semanas seremos bombardeados pelo axé music e todas as suas derivações rítmicas. A mídia televisiva vai nos enfiar goela a baixo todo o seu precioso conteúdo preparado exclusivamente para esse período. E muitos, obviamente, irão engolir. Na prática é impossível chegar a um denominador cultural comum, mas o que chama a atenção é o poder que os dias carnavalescos têm de transformar tantas pessoas e de suprir essa sede de boas sensações que elas têm. Permanecer irredutível é difícil, mas render-se ao ritual é mais difícil ainda. A sorte é que em Saint Lake City ainda é possível fugir dessas manifestações, graças a Deus, e na pior das hipóteses é só se deslocar uns 50 km para o norte que lá está a Serra do Cipó. Longe de tudo. Nos guardando pra quando o carnaval passar.

Mas esse blá blá blá do primeiro parágrafo foi apenas para introduzir minha anunciação: o Antídoto para Fevereiro. Encontrei o “Fome de Tudo”, último CD da Nação Zumbi disponível para download e resolvi enviar o link pra todo mundo que eu conheço e não conheço. É ou não é um bem para o povo brasileiro? Dá pra criar resistência à pandemia sonora que está por vir e ainda lavar a alma e os ouvidos.

Não precisa agradecer gente... que isso...

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

2007 me gusta muito!!

Este ano que se encerra, foi muito especial pra mim. Foram várias conquistas no campo do trabalho e diversas premiações em salões de humor pelo Brasil. E hoje ao dar minha passadinha habitual pelo site Brazil Cartoon me deparei com a notícia que, ao lado de grandes desenhistas, eu havia sido um dos destaques do ano!
A relação tá no link abaixo!!
É isso aí!!
Um abração pessoal!!
http://humor.uol.com.br/album/talentos_2007_album.jhtm

sábado, 22 de dezembro de 2007

Iluminado

Existem pessoas iluminadas no mundo. Há quem consiga converter sentimentos em som. Uma dessas pessoas é Andy McKee. Eu - na minha pequena experiência musical - nunca vi nada parecido. A música se chama Nakagawa-san. É uma daquelas melodias que quando você ouve o tempo parece parar. Sem igual.


Longa vida aos que buscam fazer música de verdade.

(Inspirado no Blog do André)

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Caso conjugal


Malvina era alta, branca, tinha olhos castanho-claros e cabelos pretos como a noite. Não possuía vícios além do vício da precaução: pensava que cuidado em excesso a privaria sempre de desgostos na vida, distúrbios da saúde, constrangimentos nas relações sociais.

Conhecera Benedito num lugar extremamente incomum, do qual não se lembrava mais e para o qual nunca havia dado qualquer importância. Chegou a hesitar inúmeras vezes antes de aceitar definitivamente o tímido pedido de casamento lhe feito pelo simples rapaz.

Benedito era pobre, baixinho e mal instruído. Um indivíduo sem lugar no mundo. Aprendera com a própria vida a julgar o certo e o errado, e a optar – segundo a conveniência – pela opção que lhe prometesse mais sucesso.

(Juntos, Benedito e Malvina renderiam a elaboração de romances, crônicas pomposas, verdadeiros contos que, ao contrário deste, fariam jus a beleza de suas histórias).

Possuíam personalidades que desobedeciam ao significado dos nomes que carregavam: Malvina, de má não tinha nada. Pelo contrário, só sabia fazer o bem, pensar o bem, querer o bem para os outros. Era capaz de mentir, assumir culpas de outras pessoas, render discussões até as ultimas conseqüências só para que um inocente não fosse condenado. Repugnava a injustiça. Jamais aceitara a desigualdade própria do mundo. Pensava sempre que, somando forças e conservando esperanças, seria possível mudar as coisas um dia.

Benedito já era um sujeito pronto para amaldiçoar a qualquer um que, distraidamente, lhe desse um pisão de pé na fila da padaria, ou lhe desse um esbarrão na calçada. Carregava um tipo particular de maldade consigo. Julgava as atitudes de todos aqueles que o rodeavam. Condenava pensamentos que fossem contrários ao seu conservadorismo. Era autoritário, metódico e, mesmo que inconscientemente, preconceituoso. Nem o pobre Fusca, um vira-lata amarelo de pequeno porte que Malvina havia trazido para casa depois de encontrá-lo ainda filhote, na rua, num dia de chuva, escapava de suas pragas:

- Vira-lata infeliz! Se tivesse consciência da insignificância da própria existência se enfiaria na frente de um caminhão em alta velocidade... E Fusca o olhava nos olhos, com um olhar de compreensão. Como alguém ouve e absorve o peso de cada palavra de maldição. E de certo era o que acontecia. Fusca compreendia, como é comum a todo cão entender, o que Benedito dizia.

A vida para o casal não era difícil. Malvina era funcionária pública efetivada. Conhecia sua repartição melhor do que a si mesma, melhor do que sua casa, melhor do que seu marido. Dos anos dedicados ao trabalho não esperava nenhum reconhecimento. Sabia que daquela sala cercada por quatro paredes de divisórias beges nada de melhoria para sua vida poderia surgir. No entanto, não se preocupava. Não corria riscos de ficar desempregada como grande parte das mulheres da mesma idade. Já não tinha ânimo algum para prestar outro concurso público para um órgão mais importante que lhe oferecesse um cargo melhor. Não pretendia ganhar mais porque a força de acomodação que vive impregnada no cotidiano já havia sugado por completo a sua mais saudável ambição. Não pretendia ganhar mais porque não tinha idéia de com o que gastar. Qualquer bem que ela desejasse ou precisasse adquirir caberia dentro das mesmas prestações através das quais ela havia comprado tudo o que, até então, possuía na vida.

Benedito, pelo contrário, sabia bem o que queria. Já havia tomado tantos calotes e dado tantos outros que não fazia mais conta do tempo ou dinheiro perdido. Passara a maior parte da vida apostando em negócios que deram errado, mas jamais desistira da idéia de ficar rico com o comércio. Já havia aberto lojas de tudo o quanto fosse mercadoria, nos mais variados pontos onde o comércio se aquecia. Tudo em vão. Sua vida se resumia em tentativas que eram alimentadas pelo fracasso. Talvez por isso a próxima tentativa fosse sempre mais repleta de esperança. Talvez pela sua inquietude e persistência no próximo negócio ou até mesmo pela sua dedicação e amor ao trabalho, se justificasse seu comportamento enquanto marido. Nunca quisera ter filhos. Nunca dera a Malvina a chance de contra argumentar nas discussões sobre o assunto, à tardinha, depois do trabalho.

Já se havia passado mais de nove anos de união e a relação do casal parecia estar bastante saturada. O tempo fez com os dois o que faz com todo mundo. Mostrou todos os lados, todos os ângulos do ser, sem cortes. Mostrou, de um para o outro, as cicatrizes feitas por eles mesmos, as esperanças mortas, escritas como um dístico na testa do outro. O tempo, esse estraga-prazeres, levou as poucas surpresas embora. Revelou que o que havia por descobrir já havia sido descoberto. Até mesmo o “por fazer”, que carregava um caráter de obrigação, perdeu o peso. Como uma parede de sala por pintar, que o passar dos anos acaba amarelando e o amarelo se torna uma cor de conformação, uma cor de “deixa como está que é melhor nem mexer”.

- Malvina, o que é que você tanto lê nesses panfletos, criatura?

- Não são panfletos, Benedito. São editais de concursos públicos federais. Acabaram de ser publicados. Por que é que você também não dá uma olhada? Pode ter coisa que te interessa aqui...

- A única coisa que me interessa é o comércio, você sabe.

- Sei sim. É por isso que sua vida continua assim. Estagnada.

- Estagnada não! Para se atuar no comércio é preciso ter tino pra coisa. Faro apurado e

acima de tudo sorte! ...o que tem me faltado ultimamente é a sorte, mas paciência! Nenhum grande empresário ficou rico da noite para o dia. Comigo não vai ser diferente.

- Nada na sua vida vai ser diferente, Benedito! Nunca! – disse Malvina já com os olhos cheios d’água e em elevado tom de voz...

- Você não consegue pensar em mais nada além de trabalho! (continuava) Já estamos juntos há quase dez anos e você se comportou por todos os dias durante esses dez anos da mesma maneira! Como alguém é capaz de ser tão frio? Nunca tivemos um filho! Nunca viajamos! Nunca nos relacionamos com outros casais! Nunca nos divertimos de verdade! Nunca aproveitamos a companhia um do outro como deveríamos!

- Malvina, o que é isso? Você nunca agiu assim. Você nunca se queixou.

- Pois agora eu estou me queixando. Eu estou botando pra fora tudo o que estava engasgado! Tudo o que tortura da rotina me fez assumir...

E ao passo que dava ênfase a seu sincero desabafo, Malvina se desmanchava em lágrimas e soluços. Era como se a necessidade de dizer algo verdadeiro, mesmo que o verdadeiro fosse doloroso, se fizesse maior do que a necessidade da estabilidade conjugal que sempre fora, (e essa era uma culpa conjunta) visivelmente, uma prioridade para os dois. O diálogo daquela noite deveria se tornar um divisor de águas na relação dos dois, um novo ponto de partida para uma relação mais proveitosa, um recomeço.

Benedito ficara realmente pasmo com a reação de Malvina ao passar dos dias. No fundo ele jamais esperaria que tal atitude viesse a acontecer tão cedo. Depois de algumas horas de absoluto silêncio, ao abrir a porta do quarto e sussurrar: “Malvina, meu amor, você já está melhor?”, o que ele ouviu foi um seco:

- Sim, apenas traga-me um comprimido para enxaqueca que amanhã preciso acordar disposta para o expediente que começa cedo.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Requiém Do Pequeno

Te falta o gesto largo, a ébria poesia
Te sobra a pequeneza, as pequenas certezas
Como Agenor dizia
A vida não te intoxica enquanto contas trocados
Não vês o anzol e a linha da vida que passa ao teu lado
Te falta subir ao mais alto, te falta descer ao mais baixo
Te sobra a maldita prudência, alegrias compradas a prazo
Ao invés de viver, sobrevives, sacrificas o essencial
Não choras de dor em finados, não gritas de amor carnaval
Cometes então, que surpresa!O sacrilégio final
Não vês a fugaz e humana beleza e sonhas em ser imortal

Ps.: Ganha um doce quem adivinhar de quem é esta letra...

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

DECLARAÇÃO

Você incorporou meu jeito de ser, como um objeto que vai se humanizando ao contato da gente. Você passou a usar os meus jargões, as minhas piadas repetidas, as minhas gírias, o meu sotaque. E quando você começou a usar “Verdana 10” só porque essa era a fonte que eu mais usava?

Agora eu vi que, contraditoriamente, foi você quem saiu ganhando. Nessa brincadeira foi um tanto de você que acabou se impregnando em mim. Ou então, sem perceber, você saiu levando um pedaço meu; covardemente.

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Eu não sou daqui

Como prometido há meses atrás, mais músicas para download. Essa se chama "Eu não sou daqui" e foi escrita já há algum tempinho...

(É interessante ouvir a música num fone de ouvido porque essas caixinhas tradicionais de computador não emitem o grave direito e você não vai conseguir ouvir o som do contra-baixo. A não ser que você tenha caixas de home theater no seu PC.)

EU NÃO SOU DAQUI

Eu não sou daqui, eu sei
Eu não pertenço a este lugar
P’ronde eu devo ir, não sei
Eu sei que eu não devo ficar

Onde está o abrigo mais seguro pra eu poder morar?
Mandem construir um muro impossível de saltar.

Hoje eu vou dar uma festa
e não vou convidar ninguém
E ninguém vai perceber
que eu estou longe de mim também;

Já faz tanto tempo que venho tentando me encontrar;
me perdi sozinho e sem caminho,
onde eu vou caminhar?

Eu vou fugir pra bem longe daqui
Pra onde nem eu mesmo possa estar
Eu vou fugir pra bem longe daqui
Pra um mundo onde ninguém possa me encontrar.

Meus amigos dizem que se eu não mudar, acabo só;
Mas que vida é essa que me priva do sonho maior
Que é seguir o rumo que encontrei para ser o que eu sou
E andar mesmo sem saber pra ver até aonde eu vou.

Eu vou fugir pra bem longe daqui
Pra onde nem eu mesmo possa estar
Eu vou fugir pra bem longe daqui
Pra um mundo onde ninguém possa me encontrar.

Clique aqui para baixar!

sábado, 22 de setembro de 2007

Mais uma canção

Diamantina

Diamantes cortando corações
De dentro pra fora
Ninguém vê –Nem sente
Seu sorriso rupestre

Nos bares de uma porta só
Nas ruas estreitas
Estas ladeiras que vão dar no céu
Seu sorriso rupestre

Toco o velho violão com os olhos
Como sempre toquei
Minhas mãos tocam
Você
Como nunca toquei
Saudades de um tempo que ainda não veio
De ver no meio do azul
Seu sorriso rupestre

sábado, 15 de setembro de 2007

Triste é não entender a matemática literária que o sonho mais querido nos impõe. É não enxergar um triângulo dentro do outro, na geometria barata que nos escraviza. Triste é compreender a exatidão do mundo; e, ainda assim, buscar se alicerçar no seu lado mais humano.

Triste é saber a tristeza que há de chegar logo, com a noite; e não poder domá-la, mesmo que por amizade e apego; como um domador doma os leões. Triste é não saber desinventar o medo que nos invade, faz morada em nós; se reproduz por dentro, e nos faz seguir serenos, como um rio.

Triste é viver a lucidez imbecil da vida: perceber entre as frinchas das gavetas avisos e previsões; tendo que esperá-los acontecer por não haver forma de se desmaterializar e estar fora do plano terrestre por uma mínima fração de segundo.

Triste é poder contar o tempo que sobra sem fazer juízo do tempo que falta.

Triste é esperar pelo que já aconteceu acreditando que irá acontecer de novo.

Triste é ter um texto inteiro feito apenas por palavras rudes e infiéis, palavras desobedecem ao significado que carregam, vão contra o próprio sentido até perderem sensibilidade. Sem nada sentirem.

Triste é pensar no pouco valor que há nas palavras que jogamos para fora de nós, na tentativa de forçarmos nossa continuação (tentando existir através delas) nas gerações que virão.

Triste é não saber medir. Triste é não conseguir duvidar.

Triste é suplantar a vida com alegria de mentira. Triste é pular carnaval, ser parcela de multidão, se dissolver, homogeneizar-se.

Triste é olhar pra realidade e ver que a vida não passa de uma função do 1º grau.

Triste é repetir no mesmo texto, por centenas de vezes, a palavra vida. A palavra vida é triste em qualquer contexto.

Triste é ouvir o poeta gritar: “Eu posso amar quem eu quiser!” e saber que o poeta é triste.

Triste é não dar a mínima para as pessoas que pensam que você escreve demais sobre coisas tristes.

Triste é se enganar mudando apenas as fronteiras de lugar. Triste é perseguir a inteligência salutar.

Mas triste mesmo é acreditar no, sonhar com e esperar pelo: teletransporte.

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

A Falcatrua!


A banda Falcatrua (BH) disponibilizou em seu site todo seu álbum de estréia para download

Falcatrua e o Pau de Arara Espacial é um disco inteligente, carregado de uma brasilidade particular, que poucas bandas carregam. O disco é um daqueles trabalhos que fazem você acreditar que (ainda) vale a pena fazer rock no Brasil.

Divirtam-se!

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

A Rotina dos Sonhos...

Festival da Canção de Lagoa Santa/MG - 14/08/2007




"Arte na Praça " - 03/08/2007 (Praça Dr. Lund - L.S.)


Agosto... mês que vai deixar saudades...


segunda-feira, 20 de agosto de 2007

As Estranhas Sereias


Mais uma letra...

Ela Não Disse Nada

Ela não disse nada
Ela brincou com os vãos
Entre as palavras
E se mandou

Ela não disse nada
Nem sim, nem não
O vazio que se projetou da sua boca
Fez calar tudo ao redor, como uma oração

Ela não disse nada
E agora quem caminha em silêncio
Sou eu
Carregando no peito o estandarte da mudez
Sem nada no peito para bater

terça-feira, 14 de agosto de 2007

Bonito!



Aí está uma daquelas surpresas que de tão inesperadas fazem você repensar sobre o que é possível nessa vida.

Não há muito o que dizer sobre a participação de Marcelo Camelo no acústico Sandy e Júnior, a não ser: que lindo!

Musiquinha bonita, essa. Estou pensando até em comprar o disco. Acreditem.

segunda-feira, 30 de julho de 2007

É na praça, é de graça!

Para quem quiser conhecer o Manual Cerebral na sua versão mais sonora a oportunidade é nessa sexta-feira, dia 03/08/2007. Tem show de graça na Praça Dr. Lund, aqui em Lagoa Santa a partir das 20:00. Desta vez a prefeitura deu uma dentro. Vai ser uma noite fantástica com shows de três bandas excelentes. Está todo mundo convidado!

(Se Deus quiser não vai chover...)


Quem viver ouvirá.


Apareçam!

quarta-feira, 25 de julho de 2007

Idioma

Eu não perdi a vontade de escrever.

Admito minha falta-de-palavra com o mesmo pesar de um pai que deixa faltar comida na mesa de casa; porque vez ou outra encontro um verbo vivo e dele não sei o que fazer. A carência fortifica a medida em que se percebe que o mais propício talvez seja procurar não a melhor palavra para se expressar, mas sim o melhor silêncio. O silêncio que é sólido. O silêncio que diz.

Mesmo nessa minha condição de homem-sem-assunto é difícil imaginar que emane de mim qualquer linguagem que não seja sonora, mas acho que a falta de palavras também é um idioma.

segunda-feira, 2 de julho de 2007

Pensamento Solto no Céu

Eu...
O urubu...

Não sei se já postei isso aqui, mas o bicho que mais gosto de ver voar é o urubu. Silêncio dele no alto do céu. Nestes meses de inverno-o céu azul-vale deitar no chão olhar pra cima e deixar o coração rodopiar como e com os urubus...



quinta-feira, 28 de junho de 2007

Duas Canções



DEIXA O SOL

Deixa o sol morrer
Que a noite quer chegar
Preta sem saber
Do astro- rei- solar

Deixa escurecer
Terra, céu e mar
Que ele vai saber
Qual caminho andar
Ir subterrâneo
Encontrar mil outros corações

Deixa a lua sorrir no céu
Deita em minhas mãos
Porque já é hora de dormir
Sonhar com as estrelas
Que ainda estão por vir



PARA COMEÇAR O DIA

Fecho os meus olhos
Para começar o dia
Para ver por dentro de mim
Onde guardei seu sorriso

Seus olhos sob seus óculos
Suas janelas sob seus olhos
Seu silêncio vai por detrás das janelas
Eu sei

Ah, quem diria?
Já não tenho marcas no pescoço
Aquele dia,lembra?
Mas ainda penso em você
Você...

quarta-feira, 20 de junho de 2007

ACONTECIMENTO

O sangue dos bodes e dos touros
seca no Antigo Testamento.
O maná e a vara dentro da urna
de ouro
desaparecem. Na planície
balouça unicamente
o berço
de feno, concha lumiada
pelo clarão do Paráclito
que é justiça e consolo,
com uma cruz dormindo entre cordeiros.

Nova palavra - Amor - é descoberta
nas cinzas de outra igual e já sem música.

Desde então, fere mais a nostalgia
do sempre, em nosso barro.

Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, 11 de junho de 2007

Escapada

Quem nunca viajou durante uma aula, que atire a primeira pedra...
Isso aí era pra ser anotações de Métodos da Análise Geográfica... Era pra ser.

terça-feira, 29 de maio de 2007

Pais e Filhos


Este cartum é uma homenagem aos meus dois garotos espertos, Yuri e Gabriel (em ordem de levadeza)!!

* Depois da coruja, o papai coruja!!

segunda-feira, 21 de maio de 2007

CORUJA


As coisas não são mais coisas

Posso sentir o mundo

Mundo vai nas pontas das asas

Frio


O horizonte se expande

O que é pequeno se alarga em vermelho

Eu sei ver os detalhes

Por isso quase que sempre choro nestas horas

Quero acompanhar meus pensamentos

Mas minhas asas são de não voar


Vejo no primeiro clarão

A luz se apagar como um ruído

São seis da manhã

E não sei do amanhã

O depois...


Nenhuma árvore pra descansar os pés

Volto sozinho para casa

Silenciosa casa, os meninos dormindo

Ponho meu coração pra deitar com eles


Aí meu pensamento voa passarinho

Como sempre há de ser...



* Acho que isso podia se chamar também "Onde descanso meu coração"

** A ilustração da coruja eu já havia feito há um tempão, mas vale- e muito- pra meu sentimento de hoje...









segunda-feira, 14 de maio de 2007

Letra e música

A canção “Ninguém ali” é um dos frutos dessa nossa brincadeira de tentar fazer música. A letra é do Alves e a música é minha. Foi gravada aqui em casa, com aparatos tecnológicos baratos e produzida por nós mesmos. Agora que tudo está devidamente registrado, resolvemos disponibilizar o arquivo em mp3. Tá aí:

NINGUÉM ALI

Lá fora a rua vazia em si
E os corações sobre as calçadas
Penso nas noites que vivi
No que passou, o que sobrou do nada.

Não é possível terminar assim
O nosso amor, a nossa estrada
Ninguém ali foi ver o fim
Ninguém chorou de madrugada

E o seu diário continua aqui:
Nenhuma página rasgada
E as suas dores não senti (eu sei)
Eu acordei na hora errada

Quando parei e decidi
Eu quis correr pelas escadas
Trazer você de novo aqui
Dois corações sobre as calçadas

E o seu diário continua aqui:
Nenhuma página rasgada
E as suas dores não senti (eu sei)
Eu acordei na hora errada

Para baixar a música clique aqui

quarta-feira, 9 de maio de 2007

Novidade

Já que o assunto é Los Hermanos, e está todo sentido uma mistura de raiva com tristeza pelo fato dos caras estarem parando, eu venho trazer uma pequena "anestesia".

Rodrigo Amarante está com uma música nova transitando pela web. Trata-se da bela "Evaporar", canção que ele gravou no último disco do guitarrista carioca Lanny Gordin.

Para baixar é só clicar aqui

Podem me agradecer agora.

segunda-feira, 7 de maio de 2007


Recesso por tempo indeterminado. Essa pequena frase deixou muita gente preocupada. A banda anunciou no último dia 23 que vai paralisar as atividades por um tempo e não há previsão para lançamento de novo disco. A esperança é que haja, durante o "período ocioso", trabalhos paralelos pipocando pela web, já que não dá pra imaginar nenhum dos 4 barbudos fazendo alguma outra coisa que não seja música.

Bruno Medina, tecladista da banda estreiou uma coluna no site da globo (Instante Posterior), onde pretende escrever com regularidade, diferentemente de seu primeiro blog, o Instante Anterior.

Fica, então, a esperança de que tudo volte a normal rapindinho, e a gente volte a se encantar com boas canções. É... pode ser que a maré não vire, mas pode ser também que tudo seja como era antes. Pode ser que a vontade de fazer música com o coração renasça dentro de cada um. E que nossas vidas voltem a ser regadas por músicas carregadas daquele sentimento bom que a gente bem conhece.

(Enquanto isso, a vontade que está faltando em uns e outros está sobrando na gente.)

Pieguices à parte, somos todos hermanos.

quinta-feira, 3 de maio de 2007

O FIM ERA OUTRO

Vendo o ultimo post de Dezembro de 2006, penso que Rauzito tem vocação pra profeta. Se não acertou no texto, o título ele acertou na mosca...
Ré,ré...

quinta-feira, 26 de abril de 2007

PEDRA BRANCA

Hoje, escutando Itamarandiba, me lembrei que há um tempo atrás tinha escrito esta letra aí. Deu vontade de postar e então...

Pedra Branca

Pedra de amolar
Pedra de jogar
Pedra de tocar
O meu coração
Para outro lugar, muito além de lá
Pedra Branca

Triste é o meu olhar
Ao te ver passar
Seus cabelos pretos, muito além de lá
Pedra branca

Céu azul passou por mim
E nem sei se sorri
Só sei de você, nos meus olhos pretos
Muito além de lá
Pedra Branca

segunda-feira, 23 de abril de 2007

Nossa classe


Ser um guitarrista canhoto é ser um sofredor. É incrível a escassez de modelos de qualidade no mercado nacional. Os modelos left-hand são fabricados em proporções muito menores e consumidos em sua maioria no próprio EUA, onde estão as maiores fábricas. “Se eu fosse americano minha vida não seria assim” já diria Ed Motta.

O fato favorecedor que me serve de consolo é a lista de canhotos que venceram por não se limitarem às dificuldades e persistirem no sonho de fazer música:


Paul McCartney:


Hoje, com 65 anos de idade e fôlego de menino, o cara ainda continua fazendo jus à fama que possui: lança em média um disco por ano, está sempre compondo novas canções e faz shows incansavelmente - mesmo não precisando, afinal ele é co-fundador da banda de rock mais popular que já existiu na face da terra e poderia viver tranquilamente administrando a fortuna que conseguiu fazer, além de encher o bolso com tantos tributos, coletâneas e homenagens feitas aos Beatles.

Jimi Hendrix:


A foto acima é auto-explicativa. É um pouco difícil discorrer com originalidade sobre quem foi e o que Hendrix representa na música contemporânea. O simples fato é que o sujeito REINVENTOU a forma de se tocar guitarra e depois dele o rock (pra não dizer “o mundo”) nunca mais foi mesmo. Resumindo: é Deus no céu e Jimi Hendrix na terra.
(Se bem que agora não dá pra saber ao certo onde ele está... talvez no céu também, solando entre as estrelas...)

Toni Iommi:


Já ouviram falar em Heavy Metal? Pois é, o pai dele se chama Anthony Frank Iommi. Nasceu em 1942, na Inglaterra. Começou a tocar guitarra aos 12 anos e alguns anos depois viria a se unir com mais três amigos, dentre eles um tal de Ozzy Ousborne, e formar uma banda de rock cujo nome viria a ser Black Sabbath. Nada de anormal até aí, não fosse o formato em que as músicas eram concebidas. Graças a Toni, as canções eram mais pesadas do que qualquer coisa que alguma banda havia feito antes. O canhoto criou os riffs mais obscuros e fantasmagóricos que alguém já havia ousado fazer, e só depois dele é que o Metal se tornou uma vertente oficial do rock e assim vieram safras de bandas que trouxeram nomes como Iron Maiden, Metallica, AC/DC, etc.



Kurt Cobain:


Louco, viciado, depressivo, suicida, mas muito criativo e, é claro, canhoto. Essas seriam as definições que caberiam perfeitamente para tentar entender quem foi Kurt Cobain, líder do Nirvana. Apesar de todo o sofrimento pelo qual Kurt passou aqui e a forma como morreu, sua imagem ficou eternizada. É certo que todos os músicos dessa lista deixaram ou estão deixando seus nomes escritos na história da humanidade, mas o de Cobain, devido à forma como ele conseguiu ressuscitar o espírito quase morto do rock nos meados da década de 90, vai ficar salvo em negrito, sublinhado e em caixa alta.


Omar Rodriguez Lopes:


Esse mexicano magrelinho aí já está sendo considerando por muitos críticos o Jimi Hendrix do novo milênio. Por quê? É só pegar o “De-Loused In The Comatorium” (último disco da banda dele: o The Mars Volta) pra ouvir que você vai entender. O disco já nasce com toda uma aura mítica a seu redor, sintetizando o modo como a banda soa a maior parte do tempo: hard rock com um passado punk, provido de enxertos de polirritmia, jazz fusion clássico e pirações dub. É uma bagunça desconexa, que em algum ponto aterriza sobre a própria cara. Todos os estilos musicais apreciados pela banda são costurados num modelo único e bizarro, disfuncional e alienante como as peças de arte mais inquietantes de algum modo se prestam a ser. Como se fosse indicativo de sua amplitude e intenção, o disco é denso, inóspito nas primeiras audições. Um verdadeiro laboratório onde a guitarra sofre as mais impensáveis metamorfoses sonoras. Originalidade em estado puro.

Edgar Scandurra:


Não dava pra esquecer desse super guitarrista que merece lugar de destaque por ser brazuca (e canhoto, é lógico). Scandurra, como todos sabem, é guitarrista do Ira!, banda paulista dona de clássicos do rock brasileiro que influenciaram a mim e à juventude de muitos “amigos mais velhos” que tenho. Além do Ira, Scandurra ainda tem um projeto paralelo chamado “Benzina” (nome sugestivo ?) que mistura música eletrônica e muita guitarra. Dentre os canhotos citados aqui, ele é um dos mais habilidosos e, contraditoriamente, o único que não inverte as cordas da guitarra pra tocar, o que torna a execução da música algo ainda mais cabuloso. Enfim, é talento que não acaba mais.


E viva a minoria!

segunda-feira, 16 de abril de 2007

Pétalas

Descobri. Sou assim também...

Pétalas (Nando Reis)

Sou um homem que tem sobre a pele
pétalas
que tem sobre as unhas espinhos
cobrem o coração tantos nervos
sobram aos olhos delírios

Sou um homem que tem como portas janelas
de quem como a fome
carnívora
dorme na escuridão dos milagres
e cresce na geração dos seus filhos

e a mãe trago em mim também
sem sua mão, vou buscar caminho
no amor que desfaz meu ódio
nos meus olhos, retrato vivo

quarta-feira, 11 de abril de 2007

Animal

Hoje um pica-pau-anão me acordou por volta das cinco da matina. Estava procurando o seu café da manhã no pau-terra que fica bem em frente ao meu quarto. Levantei meio cambaleante e fui conferir se era mesmo o minúsculo passarinho. E lá estava ele compenetrado na sua tarefazinha. Devia chamar pica-pau-despertador. Já sem muito saco pra voltar pra cama fiz um café e fui até o quintal espiar as larvas de serra-pau (uma espécie de besouro que tem o nome mais sádico que já ouvi). Fora serem transparentes, o que possibilita ver seus órgãos internos, elas até que são bonitinhas... Tem umas perninhas engraçadas que não servem pra nada, tipo perna de top model - aquela secura. A casa (e gourmet) delas é um mourão velho que servia como varal. Eu ia jogar o mourão fora, mas “criei dó” como se diz por essas bandas e resolvi preservar esse estranho berçário no quintal. Dei também uma espiada na moradora que mais incomodo aqui em casa. Uma perereca (nome que considero feio, mas que sempre me traz boas lembranças) que mora em uma bromélia que tenho. Como a planta acumula água, preciso trocar a cada semana essa água que fica retida. Aí... Tira perereca - coloca perereca num vidrinho de maionese - lava a bromélia - coloca perereca na planta de novo... Um saco. Eu, se fosse ela, já tinha me mudado à muito tempo; e ela, se fosse eu, provavelmente não teria uma bromélia. Como já eram quase sete horas fiquei esperando passar o casal de papagaios que dá as caras por aqui neste horário. Passou um só, sozinho. Devem ter brigado. Papagaios além de serem monogâmicos, são muito temperamentais. Pensem só no que isso pode dar... A tristeza dele (ou dela) dava pra ver de longe. Amanhã quero ver se o casal volta, e passa aqui com aquela conversa de papagaio deles. Quase na hora de ir trabalhar... Procurei algum urubu no céu, porque gosto de ver urubu voar. Gosto desde menino. Aquela calma. Mas hoje não vi nenhum, não. Peguei o ônibus das oito, ou foi ele quem me pegou? Nestas horas penso como bicho. O Ônibus vem e engole as pessoas todas, e depois sai cagando gente cidade afora. Gosto de pensar como bicho...

terça-feira, 3 de abril de 2007

Escrevi o texto abaixo há mais ou menos duas semanas, quando as águas de março realmente fechavam o verão. Pode ser que não faça tanto sentido agora. Ou pode ser que faça muito sentido.

...


Há um medo de seguir a sina que é sentenciada quando se percebe que um dia de chuva não te tira da rotina, mas de faz cair em outra rotina: a que você criou para os dias de chuva. Há uma busca profunda por respostas nesses momentos breves de sensibilidade apurada em que você, numa atitude não menos rotineira, pára e começa a pensar no que está fazendo aqui, interagindo, aceitando, contribuindo, produzindo, solúvel, ainda.

Você se olha: és razoavelmente jovem, não tens vício algum (pelos menos vícios prejudiciais à saúde), tens saúde estável, moradia estável, posição estável no grupo social em que está inserido, (até situação financeira estável você tem!) e tanta estabilidade te incomoda.

O momento presente é confortante e estável. Não obstante, a rotina do dia de chuva (menos presente, mas não menos rotina) te permite perceber que um ar mais umedecido e tristonho faz seu lado melancólico florir. O dia pede um livro e muitas horas para leitura, pede um violão afinado, pois o primeiro acorde já vai trazer uma canção bonita e propícia, pede comida mais mineira do que a de todos os dias, pede leite e biscoitos. (mesmo sendo a cadeia das horas pequena demais para a realização de tudo que é pedido nesse dia).

A aura de nostalgia também é uma aura de proteção; pois o sol não dá as caras ao longo do dia e sua pele, se falasse, agradeceria por isso. O cair da noite não anula os desejos, ao contrário, traz o sono mais proveitoso que se pode ter. E as conclusões típicas da noite, se não chegam, não pioram em nada sua vida: podes sonhar com as coisas inconcebíveis que talvez você nem tenha desejado tanto, mas que com certeza você nunca terá.

Há ainda um quê de introspecção nas coisas mais fugazes, e por perceber isso apenas nesses momentos, você se sente um idiota inculto e medíocre que vive caindo em armadilhas criadas pelos seus semelhantes. A trapaça também vive presente em quase tudo, mas isso você já sabia, e ainda assim fingiu não ver.

No fundo você sempre soube que a vida não tem cura, e que o cantar do qual você fez alicerce pra edificar o mundo feito à maneira mais simples, com as coisas que você acreditava, não pôde ser ouvido. E sabe que se você for mais sincero do que otimista, vai descobrir que não pode ser ouvido por quase ninguém.

O que é que figura esse estado?

Se for um sentimento desconhecido é provável que alguma coisa diferente aconteça e algo seja modificado nos arredores. Se não for, a porta do comodismo vai ficar mais larga e é possível que o medo inerente aos dias de chuva passe assim a ser rotina (e deixe de ser medo).

segunda-feira, 26 de março de 2007

O QUE VOU FAZER

Tudo que quero fazer depois desta canção
É quebrar meu violão
Jogar pro alto os mil pedaços do meu coração

Tudo que quero fazer depois desta canção
É não deixar nenhuma rima rimar no meu peito
E esquecer você, pode ser?

Quando tudo silenciar dentro de mim
O que vou fazer é dizer sim para o novo
O que vier depois de você
O fim

sexta-feira, 23 de março de 2007

SUPER BACANA!

Que beleza! O texto "1973" do Alves foi publicado na edição de ontem (22/03) no jornal "O TEMPO", na coluna blogdepapel.com

Agradecimentos especiais à nossa companheira Liliane Pelegrini, por estar colaborando tanto com a disseminação das boas palavras mantendo esse espaço cultural tão útil e valioso (valeu Lili!).

Para conferir o texto com o layout do jornal e perceber como o Alves está realmente ficando famoso, basta clicar aqui

E sinceramente, isso não é o máximo?

sexta-feira, 16 de março de 2007


Se faço um verso tardio
Que anula minha expressão
Sei que me torno vazio

Se faço um verso vazio
Que diz palavras em vão
Tento me enterrar no chão

quarta-feira, 14 de março de 2007

1 ano!


Hoje o Manual Cerebral completa 1 ano de vida. Exatamente numa tarde do dia 14 de Março do ano passado essa brincadeira aqui começava.

Tentaremos continuar mantendo o trabalho dessa tripulação que busca colaborar com a tentativa de difundir boas idéias por aí.

Em breve (e talvez mais breve do que vocês possam imaginar...) traremos surpresas boas para compartilhar com todo mundo.

Parabéns pra nós!

Até.

segunda-feira, 12 de março de 2007

Correlações




Pesquisando sobre quem foi Paulo Freire e sua real importância para a educação popular no Brasil, sobretudo na proposta de alfabetização de adultos, descobri de cara que sobre sua obra havia um número maior de textos escritos em outras línguas do que em nossa própria língua.

Felizmente, essa parte triste da história foi compensada com a mais bonita das recompensas que me foram trazidas por essa humilde empreitada. Uma frase de Paulo que se tornou quase uma ideologia de vida:

"Eu sou um intelectual que não tem medo de ser amoroso, eu amo as gentes e amo o mundo. E é porque amo as pessoas e amo o mundo, que eu brigo para que a justiça social se implante antes da caridade."

Só a partir daí é fui entender porque Chico César, na excelente canção “Beradêro”, citava o nome do professor.

BERADÊRO

Os olhos tristes da fita
Rodando no gravador
Uma moça cosendo roupa
Com a linha do Equador

E a voz da Santa dizendo
O que é que eu tô fazendo
Cá em cima desse andor

A tinta pinta o asfalto
Enfeita a alma motorista
É a cor na cor da cidade
Batom no lábio nortista

O olhar vê tons tão sudestes
E o beijo que vós me nordestes
Arranha céu da boca paulista

Cadeiras elétricas da baiana
Sentença que o turista cheire
E os sem amor os sem teto
Os sem paixão sem alqueire

No peito dos sem peito uma seta
E a cigana analfabeta
Lendo a mão de Paulo Freire

A contenteza do triste
Tristezura do contente
Vozes de faca cortando
Como o riso da serpente
São sons de sins, não contudo
Pé quebrado verso mudo
Grito no hospital da gente

Iê iê iê, iê iê iê
Iê iê Iê, iê iê iê
Catulé do Rocha
Praça de guerra
Catulé do Rocha
Onde o homem bode berra

Bari bari bari
Tem uma bala no meu corpo
Bari bari bari
E não é bala de côco

São sons, são sons de sins
São sons, são sons de sins
São sons, são sons de sins

Não contudo
Pé quebrado, verso mudo
Grito no hospital da gente

Palavras para transbordar o coração...

quarta-feira, 7 de março de 2007

1973

Faz um tempo que escrevi este texto. Várias de suas partes acabei utilizando em vários escritos meus e até em alguns trechos da hq "Curva do Rio", publicada na última edição da Grafitti. A influência da prosa roseana nesta estória inacabada é evidente e intencional. Um exercício de mineiridade, uma brincadeira minha para celebrar meu escritor predileto. É isso aí.

1973

Não sou homem de chorar, nem de sorrir sem a justa causa. Gosto é dos descaminhos. Os avessos. Por isso dei de encostar aqui na Vereda Morta. O tempo passando translouco, ora passado, ora futuro. Diversas saudades, num só lugar. Pedacinhos da gente espalhados por toda parte, o arraial dando conta de tudo. Ou foi por conta do sorriso dela? Anézia. Quando ela se sorria, tudo se aquietava, eu parava num desexistir. Transe. Urubu solto no céu, os altos pensamentos. Agora clareio minha idéia, campeio meu juízo. Anézia... O sorriso dela. O dia que cheguei aqui na Vereda Morta ficou cravado na memória. Os cachorros dando seu alerta, as muitas caras curiosas, o silêncio escrito nos olhos do povo do lugar. Relembro. Um bichinho quis pousar em mim, desfez vôo e foi dar no ipê de frente a vendinha. Tudo mantendo a prudente e mineira distância. Dei de seguir aquele insetozinho, fiz caminho da venda. Vendinha comum, no trivial dos Gerais. Cerquinha de bambu, panelas, canecas, cabaças e uma placa da Coca-cola no alto da porta destoando do de-redor. Essas modernidades... Lá dentro um balcão já comido de cupim, e um velho por detrás -Seu Geraldo. Vi-nem-vi, já era tarde. Só Anézia cabia nos meus olhos. Sentada no cantinho da venda. Ela e o livro, os dois como um só. Mãozinha preta dela segurando o livro. Perdida naquele mundo, lia e se sorria. Foi aí que fiquei aqui, meu coração criou raiz. Agora lembro. 1973.

sexta-feira, 2 de março de 2007

das coisas que acontecem

Não sei quem ou o quê a trouxe até aqui
Ela carregava no corpo um rosa dos ventos
E perdi pra sempre a direção