domingo, 31 de agosto de 2008

Modernidades

Outro dia morri de rir de um post da Ferdi que falava sobre a "inserção" das bandas de pagode na modernidade. Concordo com a crise de risos dela...rsrsr Acho que não há nada demais em falar das coisas novas, modernas... Mas quando o fizer, que seja bem feito. Aí em baixo segue uma letra do Jorge Ben Jor (a música é deliciosa) em que ele fala do rádio de um jeito simples e inteligente e, como o próprio Benjor diria, contagiante!!


Para Ouvir No Rádio (Luciana)
Jorge Ben Jor

Eu vou fazer uma canção singela
Prá você se lembar de mim quando ouvir rádio
Em ondas médias em ondas curtas
E freqüência modulada prá você se lembrar de mim
Quando ouvir no rádio
Mas se você não puder ouvir
Por falta de tempo ou por falta de rádio
Alguém há de passar cantando assobiando
Perto de você
Mas se depois disso tudoVocê não conseguiu ouvir
Porque não quis ou por algum problema
Subirei descerei o morro novamente
Como um guerreiro vencedor
Cantando o meu hino de amor
Luciana, Luciana, LucianaLuciana, Luciana


Ps.: Raul, vc tá devendo um post para falar do seu primeiro prêmio como compositor, camarada!!
Nada de modéstia, heim!!?

domingo, 3 de agosto de 2008

O caminho de Pisar Com os Olhos

O sapato sujo
A cara lavada
O amor no bolso
O pé na estrada
Sigo em frente quase sem querer
As muitas estrelas do céu
Dançam desorientadas sobre mim
De quando em quando um bar
E bebo goles de alívio
Tristezas e alegrias vão me acompanhar
Mas vou bem melhor
Vou bem melhor sozinho
Eu sei

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Manual Cerebral News: Fofocas em tempo real.


* As especulações estão realmente fortes agora. Marcelo Camelo deve realmente lançar um disco solo até meados de 2009 (Viva!). Enquanto isso a Multishow começa a anunciar o lançamento de um DVD com o registro de um dos últimos shows da banda em recesso mais cultuada do país. (E existe outra, por acaso?)

* Bruno Medina está em turnê com Adriana Calcanhotto, na divulgação do excelente "Maré", disco lançado esse ano.

* Rodrigo Barba está tocando com uma pá de gente (quem tem banda sabe como é difícil arranjar bateirista), dentre elas o Latuya (projeto paralelo que o bateirista já mantinha antes dos Los Hermanos pararem.)

* Rodrigo Amarante, quem diria, está armando um projeto com ninguém menos que os Strokes. Na foto abaixo entre as meninas bonitinhas está Nick Valensi (primeiro à esquerda), guitarrista da banda. Ao baixar a foto (que está no Myspace de Nick) descobre-se que o nome do arquivo é "Xmas1". Veja você que o natal do rapaz parece ter sido divertido...

E enquanto nada acontece a gente continua esperando... esperando... esperando só... esperando o trem...

domingo, 20 de julho de 2008

Dou-lhe uma, dou-lhe duas...

Numa conversa recente com meu amigo Alves, falávamos sobre esse “fenômeno” pelo qual passa a indústria fonográfica mundial. A necessidade da produção em série para fazer funcionar a máquina mercantil da arte. A necessidade de haver música comercial em todos os gêneros existentes. O cuidado que NÃO se tem ao se rotular a música e o cuidado precisamos ter com os pequeninos, para que eles tenham o privilégio de experimentar, junto com o que lhes é oferecido hoje, um pouco dos sons que fizeram e fazem nossa cabeça. O que é comercial e o que não é? Tudo que é comercial é lixo? O texto abaixo (apesar das piadinhas) trata seriamente de um caso específico relacionado a essas idéias.


PROTESTO

É realmente incrível o poder de apropriação que a indústria exerce sobre o artista, e pra ser mais exato, sobre a arte de um modo geral. A modinha de lançar álbuns póstumos de artistas consagrados deve incomodá-los onde quer que eles estejam. Os exemplos são incontáveis: Cazuza, Cássia Eller, Raul Seixas, Gonzaguinha, Pixinguinha, Tom Jobim, Vinícius e é claro, o campeão - Renato Russo. Imaginem vocês que a última desse pessoal foi lançar um álbum do artista com as demos de uma gravação dessas que a gente faz em casa, pra não esquecer a música, no formato voz e violão, feito pelo próprio Renato em meados de 1982. Eu aposto com qualquer um que se o músico estivesse vivo isso não aconteceria em hipótese alguma. Primeiro pelo nível técnico da gravação, absurdamente ruim. E depois pelo fato de o álbum, além de não trazer qualquer novidade, ser batizado com o nome de “O Trovador Solitário”!?.

O coitado deve se retorcer de ódio no caixão só de pensar que pegaram aquelas suas fitinhas K7, guardadas ali na última gaveta do seu guarda-roupa, e as transformaram num CD que vai encher o bolso de uma galera! Sim, porque os fãs de carteirinha (que todo mundo sabe: não são poucos) vão comprar o disco e vão achar lindo “Faroeste Caboclo” começando num tom e terminando em outro. Não por causa de uma mudança de tom natural na música, mas por causa da distorção incorrigível da fita demo.

Que diabos levam uma gravadora a lançar um disco com as mesmas músicas que já saíram em outras quatrocentas e trinta e sete mil coletâneas lançadas anteriormente? E pra piorar numa versão violão e voz de quinta categoria? Se a intenção era difamar Renato Russo e acabar com a boa lembrança que ainda temos dele tudo bem. Demorei pra entender porque não estava bem explicado.

É revoltante ver gente fazendo dinheiro com a arte alheia depois que o verdadeiro artista já foi dessa pra melhor. É gente vendendo as cuecas usadas (e não lavadas) por artistas antes de morrer. Gente pedindo uma fortuna por um pequeno pedaço de papel higiênico que aquele ídolo pop usou pra limpar o rabo antes do seu antepenúltimo show. Gente se enriquecendo com leilões de bugigangas nas quais artistas encostaram por um milésimo de um segundo uma vez na vida. É justamente aí, nesses atos de suposta homenagem, que reside toda a falta de respeito com quem fez história.

Hoje em dia, sobretudo a nível de Brasil, tornou-se muito difícil “a vida” de pop-star-defunto.

Memorial

O texto abaixo é o trecho de um memorial que fiz para disciplina Prática de Ensino.
Deveríamos falar de nosso primeiro olhar geográfico, as primeiras impressões...


"Não me lembro bem como foi que de repente essa idéia se plantou na minha cabeça de menino. Menino... Acostumado com os pequenos verdes duros do cerrado no de redor da casa - os pés no chão, cabecinha nas nuvens. Brincadeiras de ir e vir. Buscar cajuzim, murici, sangue-de-cristo, pequi... Todos os sabores do mato eu sabia. Os bichos - sempre gostei mais de ver do que de matar.Tinha dó, inda hoje tenho. Adorava ver pica-pau voando seu vôo picado. Três batidas de asa e se fingia que caia no ar, pra depois levantar vôo de novo -e lá se ia o bicho voando no seu desajeito. Deselegância bonita. Tinha também as “trucal”, estas não se paravam muito por perto, não. Ariscas, passavam em bando no seu vôo cheio de silêncio e pressa. Os passarinhos tesoura apareciam mais pra Setembro, comecinho das chuvas. Caçavam com maestria as mutucas depois da invernada... Eu ganhava longas horas dos meus dias apreciando o “de fazer” dos bichos todos. Ah, eu gostava muito disso. E era assim, os dias se passando. A nossa casa só no reboco, ainda em construção -eu na frente do que seria a varanda olhando aquele mundo quintal. Resto de tardinha. E mãe me chamava pra entrar. Entrar, eu não entrava assim de primeira, ficava na porta e olhava o morro. É, e tinha o morro. O morro era o mundo? O morro me intrigava, não via o depois dele. O que viria? Tinha outro o quê? Eu lá sabia? E dei de pensar no morro... Todo dia imaginava o que havia de se esconder ali, por detrás dele. Mas nunca que via nada. Nuvem branca nublando minha mente. Pensava, Pensava... E então um dia, dei por solucionado o mistério. Descobri. Atrás do morro tinha uma onça. É, uma onça. Os grandes olhos de gato, bicho absurdo de grande, deitada preguiçosa numa moita de capim-meloso. Minha idéia de menino. Eu via. E me bateu uma vontade de subir o morro, topar com a felina. Eu podia... Passei o dia fazendo minha zagainha de bambu, que cortei no bambuzal do Bequinho. Ponta de canivete na frente, reluzindo. Arma de se matar assim de espeto, o bicho pulando por de cima de mim, e só eu furando o coração por debaixo do braço monstro dela. Ah, eu podia sim! À noite nem sei se sonhei, dormi num vendaval - a pressa de uma nova manhã. Acordei num pulo, e já me vi correndo no meio do mato. O cheiro da manhãzinha ainda ia alto, molhado. Fui subindo o morro, suor pingando na cara. Um casal de papagaios passou voando. Vi nem vi -só o morro e a onça cabiam no meu peito. E o morro foi se acabando. Fui chegando... E a zagainha tremia nas mãos. Foi então que vi-descobri, eu no alto do morro, lá do alto... Não havia onça nenhuma. Nenhum bicho de se pegar na luta. Só um mundo grande demais, de não se caber nos olhos, nem de se abarcar na alma miúda de gente criança. Imensidão muda. O mundo que se abria num quase infinito se fez meu... Os quintais e varandas haviam ficado pequeninos demais – como um menino.
E dei de crescer...

sábado, 12 de julho de 2008

Rosa

Este ano Guimarães Rosa estaria completando 100 anos. Faço esta pequena homenagem ao escritor e de quebra ao brother Raul e a nova banda dele, cujo nome é o mesmo do título da letra. Pretendo postar todo mês uma letra inspirada no sertão encantado de Rosa. Pra começar, a primeira palavra da obra prima do autor ...




Nonada

Não é nada não
É só meu coração batendo forte logo ali
Bem fora do peito
E eu não sei direito tudo que senti
Vendo o céu se abrir
Nuvem, rosa, seca - o sertão é logo ali
Em todo lugar que há de se existir

Não é nada não
É só meu coração batendo forte dentro aqui
Bem dentro do peito
E eu não sei direito tudo que senti
Vendo o céu se abrir
Nuvem, rosa, vento – o lugar a se partir
Coração sangrando até se consumir


Não é nada não
É só meu coração batendo forte ao sentir
O mundo no peito
E eu não sei direito tudo que senti
Vendo o céu se abrir
Isto é um novo jeito, uma nova forma de sorrir?
Nuvem, letra, rosa – o sol que nasce por aqui
Luz pra confundir?

Não é nada não
É só meu coração batendo forte até se abrir
Até rasgar o peito
Agora sei direito tudo que senti
Vendo o céu se abrir
Nuvem, rosa, sangue – o infinito cabe aqui
O sertão no peito
Coração batendo alto pra ninguém me ouvir

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Junho

Junho

Alceu Valença

Eu sei que é junho, o doido e gris seteiro
Com seu capuz escuro e bolorento
As setas que passaram com o vento
Zunindo pela noite, no terreiro
Eu sei que é junho!
Eu sei que é junho, esse relógio lento
Esse punhal de lesma, esse ponteiro,
Esse morcego em volta do candeeiro
E o chumbo de um velho pensamento
Eu sei que é junho, o barro dessas horas
O berro desses céus, ai, de anti-auroras
E essas cisternas, sombra, cinza, sul
E esses aquários fundos, cristalinos
Onde vão se afogar mudos meninos
Entre peixinhos de geléia azul
Eu sei que é junho!

Alceu é um gênio e esta música é linda...
Já passei um inverno no nordeste, aquela chuvinha fina batendo na cara da gente... Por que é que gosto de tudo ao contrário (todo mundo idolatra o sol do nordeste)?
Ré,ré!

Poema contra a solidão

O silêncio que se materializou perverso
o silêncio que aboliu a canção
seja agora corrompido
tenha seu hímen obstruído pelo barulho poluído do meu instrumento.

o silêncio que encarnou o vazio
o silêncio que se fez interior
seja nesse instante dilacerado
por um ruído humano, sólido e rosado.

o silêncio e todas as peças imateriais que o compõem
derretam no fogo de qualquer microfonia
e formem um homem novo
feito mais de barulho que de silêncio.

segunda-feira, 23 de junho de 2008

MÚSICA PRA SALVAR O DIA

QUALQUER - Arnaldo Antunes / Hélder Gonçalves / Manuela Azevedo

qualquer traço linha ponto de fuga
um buraco de agulha ou de telha
onde chova

qualquer perna braço pedra passo
parte de um pedaço que se mova

qualquer

qualquer fresta furo vão de muro
fenda boca onde não se caiba

qualquer vento nuvem flor que se imagine além de onde o céu acaba

qualquer carne alcatre quilo aquilo sim e por que não?

qualquer migalha lasca naco grão molécula de pão

qualquer dobra nesga rasgo risco
onde a prega a ruga o vinco da pele
apareça

qualquer lapso abalo curto-circuito
qualquer susto que não se mereça

qualquer curva de qualquer destino que desfaça o curso de qualquer certeza

qualquer coisa

qualquer coisa que não fique ilesa

qualquer coisa

qualquer coisa que não fixe

quinta-feira, 19 de junho de 2008

EVAPORAR

O futuro tem, pelo menos, a vantagem de não ser o presente.

Apesar de imprevisível, inacessível e descolorido, ainda não uma realidade que doa no estômago. O futuro pode ser um alicerce para a projeção da miséria humana em toda sua infalibilidade ou uma verdade da qual não queiramos saber. Não importa. Basta se encharcar do agora que possuímos como um pano de chão embebido de lama para sentir o que eu estou falando. O agora me traz sentimentos que de tão interiores chegam a ser vazios: não descubro, pressinto.

Há que se entender tantos sinais a nossa volta. Tatear no escuro do mundo nossa imaterialidade. Entrar em estado gasoso, já que é assim que dizem que as almas se materializam. Mas no futuro a gente sabe que não existe alma. Lá, alma é mentira e uma mentira que convence mais do que qualquer verdade.

Olha só que verdade triste: por ter mais dinheiro do que os que passam fome já sou, de algum modo, desonesto. Sou um elo formador da corrente da desigualdade. Contribuo para o distanciamento consentindo. E mesmo no momento da covarde fuga sou capaz de me sentir bem: já providenciaram uma música para esse momento. Anestesiaram a dor de sermos o que somos e estarmos nesse mundo em forma de gente em vez de outra coisa.

A “verdade realmente verdadeira” é que a vida é cheia de problemas e a gente passa tempo demais tentando ser discreto. É preciso evaporar. Conseguir se transportar para o futuro, porque este, ao menos tem a vantagem de não ser o presente.

sábado, 14 de junho de 2008

ELA

Ela foi feita pra realizar desejos. É a solução para os meus sonhos não consumados. É um paraíso para as vontades da carne. É uma ordem irracional, um “carpe diem” da boca pra fora, uma profecia vã.

Eu nela sou eu mesmo? E o que há dela em mim, além do próprio mandamento de adorá-la em segredo e em silêncio?

Ela foi modelada com todo o zelo até no seu jeito de ser desleixada. Tudo que a compõe foi calculado para ser de meu agrado. Sim. Eu gosto das unhas com esmalte descascando, as unhas mal ruídas. Eu gosto do cabelo embaraçado, preso para disfarçar os nós e gosto das pontas ressecadas de cada fio, queimadas de sol. Eu gosto da calça barata e surrada, apertando matéria em espaço insuficiente.

Ela foi feita para, de alguma forma, eu despejar meu gozo. Mesmo que só em pensamento? só com o olhar? Nela estaria a amplitude absoluta do sentimento? Do desejar antes, gostar depois? Do “se amassar” antes de saber o nome? Nela estaria a significação da mediocridade inerente a mim? A justificativa para a tão condenada banalização do amor? Nela estaria a perdição que eu procuro? Há maneira de se perder em alguém? E o amor, já não é banal antes de existirem ela, eu e toda essa bobagem?

Ela é a porta menos estreita, escancarada, pedindo calada pra ser invadida. Serei eu, algum dia, o invasor?

Ela é a outra vida nessa vida. Tesão platônico.

sábado, 7 de junho de 2008

Ilustração/Quadrinho Sobre Desmatamento


Fiz esta ilustra para a Editora Dimensão... Achei que ficou "bunitinha" e resolvi postar!



Tô andando meio sem tempo, mas tenho escrito algumas coisas, em breve posto aqui!

Abs

quarta-feira, 4 de junho de 2008

FILOSOFIA BARATA


Tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo. Ou é o tempo que acontece durante o correr das coisas? Não sei. Sinceramente não sei. Talvez sejam as duas coisas, ou talvez as duas coisas sejam uma só.



De que vale a intenção de saber mais sobre as coisas?



Se uma coisa existe, uma intenção existe.



Uma pedra existe.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

POEMA DE QUALQUER UM



É impossível, meu amor
fugir da vida, contar o tempo, medir o mundo.
É esforço vão tentar saber de tudo.

É uma enorme bobagem
tentar fugir daquilo em que a gente não acredita



[A verdade mais falsa do mundo é
se olhar no espelho, todo dia de manhã]

Participar de acontecimentos e
resistir ao passar do tempo
não é uma virtude exclusiva.
É possível influênciar alguma
coisa no mundo mesmo passando despercebido.

Não se sinta derrotada só porque você
não tem certeza de nada do que você faz;
para ser mais feliz, não sinta.

Tenha fé na força do silêncio.
Já basta.

sábado, 31 de maio de 2008

CONSTATAÇÃO

Eu ganhei uma mesa, um computador, um carimbo no meu nome, um horário a ser cumprido e uma relação rigorosa de afazeres. Passei a usar (esporadicamente) sapatos e roupas mais “sérias”. Comecei a reclamar de coisas que outrora aconteciam, mas não faziam surtir qualquer ato repulsivo de minha parte. Entendi perfeitamente o que era a palavra rotina e descobri vivendo, muitos dos males trazidos por ela. Aumentei então minha coleção de vícios.

Acho que além de me tornar um adulto eu me tornei um homem-comum.

sábado, 17 de maio de 2008

UM TEXTO QUE VALE A PENA LER ATÉ O FINAL

MEU IDEAL SERIA ESCREVER...

MEU ideal seria escrever uma história tão engraçada que aquela moça que está doente naquela casa cinzenta quando lesse minha história no jornal risse, risse tanto que chegasse a chorar e dissesse — "ai meu Deus, que história mais engraçada!" E então a contasse para a cozinheira e telefonasse para duas ou três amigas para contar a história; e todos a quem ela contasse rissem muito e ficassem alegremente espantados de vê-la tão alegre. Ah, que minha história fosse como um raio de sol, irresistivelmente louro, quente, vivo, em sua vida de moça reclusa, enlu¬tada, doente. Que ela mesma ficasse admirada ouvindo o próprio riso, e depois repetisse para si própria — "mas essa história é mesmo muito engraçada!"

Que um casal que estivesse em casa mal-humorado, o marido bastante aborrecido com a mulher, a mulher bastante irritada com o marido, que esse casal também fosse atingido pela minha história. O marido a leria e começaria a rir, o que aumentaria a irritação da mulher. Mas depois que esta, apesar de sua má-vontade, tomasse conhecimento da história, ela também risse muito, e ficassem os dois rindo sem poder olhar um para o outro sem rir mais; e que um, ouvindo aquele riso do outro, se lembrasse do alegre tempo de namoro, e reencontrassem os dois a alegria perdida de estarem juntos.

Que nas cadeias, nos hospitais, em todas as salas de espera a minha história chegasse — e tão fascinante de graça, tão irresistível, tão colorida e tão pura que todos limpassem seu coração com lágrimas de alegria; que o comissário do distrito, depois de ler minha história, mandasse soltar aqueles bêbados e também aquelas pobres mulheres colhidas na calçada e lhes dissesse — "por favor, se comportem, que diabo! eu não gosto de prender ninguém!" E que assim todos tratassem melhor seus empregados, seus dependentes e seus semelhantes em alegre e espontânea homenagem à minha história.

E que ela aos poucos se espalhasse pelo mundo e fosse contada de mil maneiras, e fosse atribuída a um persa, na Nigéria, a um australiano, em Dublin, a um japonês, em Chicago — mas que em todas as línguas ela guardasse a sua frescura, a sua pureza, o seu encanto surpreendente; e que no fundo de uma aldeia da China, um chinês muito pobre, muito sábio e muito velho dissesse: "Nunca ouvi uma história assim tão engraçada e tão boa em toda a minha vida; valeu a pena ter vivido até hoje para ouví-la; essa história não pode ter sido inventada por nenhum homem, foi com certeza algum anjo tagarela que a contou aos ouvidos de um santo que dormia, e que ele pensou que já estivesse morto; sim, deve ser uma história do céu que se filtrou por acaso até nosso conhecimento; é divina."

E quando todos me perguntassem — "mas de onde é que você tirou essa história?" — eu responderia que ela não é minha, que eu a ouvi por acaso na rua, de um desconhecido que a contava a outro desconhecido, e que por sinal começara a contar assim: "Ontem ouvi um sujeito contar uma história..."

E eu esconderia completamente a humilde verdade: que eu inventei toda a minha história em um só segundo, quando pensei na tristeza daquela moça que está doente, que sempre está doente e sempre está de luto e sozinha naquela pequena casa cinzenta de meu bairro.

Rubem Braga

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Eu também ainda brigo por sonhos...

Flores E Espinhos
Herbert Vianna
Nessa época do ano
Quando o frio vem chegando
E há menos flores que espinhos
Os dias perdidos
Vem a luz
Ainda éramos filhos
Éramos amigos
Até sermos engolidos
Pela vida sem brilho
Por nossos inimigos
Na rotina comum
E sou só um
Mas não sou um deles
Eu sou só um
E mesmo que pareça tolo
E sem sentido
Eu ainda brigo por sonhos
Eu ainda brigo
Ps.: E que friozinho bom nos trouxeram os ventos de Maio...