quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Diante do Carnaval


"... Ora pois, chegou o momento de cessar o trabalho e entoar o cântico e desmanchar o corpo em sacolejes convulsos. Teus ami­gos se dividiram em duas hostes: a que se retraiu para montes e praias, e a que, vestindo os disfarces mais leves, saiu por aí saracoteando e gritando. Entre as duas formas de viver o car­naval, ficaste sozinho e desarmado: no centro do acontecimento, sem participar dele."



"... O carnaval não mudou senão nas formas aparentes, e não tens direito de suspirar que naquele tempo, sim, era melhor, e hoje tudo é porcaria, da decoração aos sambas. O carnaval cres­ce e se agita dentro de cada um, seja ou não patrocinado pela Prefeitura, e dinamiza músculos e cordas vocais, restituindo ao homem um pouco da animalidade comprometida menos pela ci­vilização que pelo seu uso mecânico ..."



"... Entre o prazer e a abstenção, encontraste no carnaval este secreto encanto: é uma festa que a uns permite a extroversão, a outros dá ensejo de fugas marítimas ou campestres, e a ti ofe­rece o exercício da arte difícil e nobre de estar só."



(Trechos da crônica Diante do Carnaval, de Carlos Drummond de Andrade.)

sábado, 26 de janeiro de 2008

Xico Sá

E Xico Sá, fala pra "F"*... Um papo proveitoso!


Jornalismo embaranga

Rough cut da entrevista com o Xico Sá que sairia na F#5. Não está editada, acho que só fiz uma primeira revisão, tem os intervalos entre as trocas de fita discriminados e tal. Portanto tem quase tudo que a gente conversou. Pra ser honesto com vocês tirei um parágrafo porque não sei se o Xico queria que fosse em off e tal. Apesar do que digo lá no final do papo, acho que essa superou a do Fausto. Presentes o corpo editorial da F e a Marsílea, nossa gloriosa faz-tudo. Conversa gravada no bar Mangue Seco, com muitas cachaças e caranguejos, 10/06/2006.

Leo - Mas então, bananeira, cactos.. teve alguma outra etapa antes?
X- Depois veio cabra, caprino, porque eu era um otário. Os caras comiam porca, égua. E cabra é um bicho meio terno, que fica meio quieto no canto, esperando.. você passa a mão na cabeça e ela vem, não tinha muito trabalho. Eu era contra isso de sexo que tinha que suar e ter um trabalho da porra. Eu comia essas coisas que não davam muito trabalho, bananeira, cabra. Por isso que eu não comia mulher, que dava um trabalho da porra (risos). Eu fui comer uma mulher com 15, 16 anos, eu digo mulher conquistada com minhas próprias forças, porque eu comi puta depois. Foi bananeira, cabra e puta. Mulher foi quarta instância (risos).
Arnaldo - E troca-troca, rolou?
X- Claro que rolou. Tinha uma coisa escrota do troca-troca que nego fazia ... o grande drama do troca-troca é quem vai comer primeiro. Claro que quem come primeiro vai embora (risos). Não tem a menor chance de não ir embora, mas rolou pra caralho. Isso era num lugar chamado Sítio das Cobras – o nome é foda, emblemático- isso é perto do Cariri, perto do lugar em que nasci. Meu registro está todo errado, está como se eu tivesse nascido no Crato em 1964, e eu nasci em 1963. E eu não nasci no Crato, nasci em Santana do Cariri, nesse Sítio. Meu pai foi me registrar com 9, 10 anos de idade. Só quando foi me botar pra escola, aí errou tudo, hora, data..... Graças a Deus eu não posso fazer mapa astral (risos), me livrei da merda que alguém pode me dizer. Mas tá tudo errado, nego não ligava.... não tinha bolsa família. Agora tem que fazer o registro no dia seguinte ao nascimento, pra pegar esmola federal.
Arnaldo - O recenseamento nem chegava lá?
X- Tinha mas não importava... meu pai mora nesse mesmo sítio até hoje, ele nem tem carteira de identidade. Fomos morar em Juazeiro, mas ele não se adaptou um segundo da vida lá. Foi com a gente pra que pudéssemos estudar, largou minha mãe sozinha... ele dizia: "eu vou pra um lugar que chega conta pra mim?". Meu pai nunca pagou uma conta, velho.
Allan - Gênio!
X - É, mas vai dizer pra minha mãe que meu pai é gênio.... minha mãe o acha um escroto filho da puta.. são as razões dela, de mulher. Ele nos deixou em Juazeiro e eu tive que cuidar da porra toda quando completei 18 anos. Ela o acha um escroto, mas eu acho ele um gênio.
Allan - Você é o mais velho?
X- Sou. Tive que cuidar dos meninos, fui vender cereais e odiava isso. Até hoje eu odeio cereais brutos, aquelas sacas de pesar pra vender. E aquela porra de embrulhar? Eu odiava essa porra.
Marsílea - Quantos irmãos?
X - Sete. São seis e mais um menina que minha mãe criou.
Arnaldo - Se fosse mais um homem seria lobisomem, é isso?
X- É, seria....
Arnaldo - E você começou a trabalhar com jornalismo sendo consultor sentimental?
X - Comecei numa rádio de Juazeiro, chamada Rádio Vale do Cariri, que era um cara vizinho meu, um locutor, chamado Jevan Siqueira. O cara tinha um programa chamado "Temas de amor" às 22horas. Eu tinha 14/15 anos.
Leo - Mas isso foi depois da cabra, da puta? Quando foi isso?
X - Nessa época eu morava em Juazeiro, mas voltando ao sítio – que eu vou até hoje, porque rola uma afetividade foda. Isso foi antes da mulher, na puta, antes da mulher.
Leo - Quando você era conselheiro?
X - De 14 pra 15 anos eu fazia essa porra, mas eu não sabia o que era uma mulher e aconselhava homem com mulher. Apesar de nunca ter uma mulher na minha frente... Se fosse " Conversa com as cabras" (risos) ... "Temas de amor", mas amor de quem? Homem com bananeira? Homem com cabra? Eu não tinha a menor moral, era ficção pura. Na verdade eu fiz um poema, tinha uma mulher vizinha a nossa casa na rua Santa Luzia, em Juazeiro, chamada Conceição. Eu fiz o poema e mandei pro cara da rádio. Essa mulher era daquelas balzacas de interior que não dá pro cara, segura a buceta assim, 50 anos... Era o Nonato, um cara pedreiro que queria comer ela e ela não dava nem fudendo. Eles namoraram duzentos anos, aqueles namoros de interior. E eu fiz uma croniqueta, uma crônica, sobre a história de Conceição e Nonato no sofá. Como eu era vizinho do cara, eu falava em ajuda-lo no programa. Eu era doido pra comer a filha dele, Rosângela, que era gostosa. Depois ela abriu uma boate em Juazeiro chamada "dancing days", e a mulher dançava pra caralho e era muito gostosa. Tinha um irmão meio louco. Acho que tinha um filho dele querendo comer minha irmã. Era um incesto moral de interior. Mas essa família me interessava muito.
Arnaldo - Foi a primeira vez que você trabalhou com jornalismo então? Esse foi o link?
X - Foi, começou nessa história. Aí fui pro Recife porque nessa região do sul do Ceará, na minha geração, nego não tinha nenhuma relação com Fortaleza. Eles iam pro Recife. Era uma questão de afinidade e tinha uma coisa histórica, que em 1914 o padre Cícero brigou com o governo do Ceará e o sul do Ceará, o Cariri ficou meio uma Catalunha louca. Até hoje nego bota bandeira na porta defendendo a independência da região. Hoje nego também vai pra Fortaleza, mas tinha uma coisa.... Você pega os caras de Miguel Arraes, e todo mundo ia pra Recife e não pra Fortaleza. Juazeiro tem 70% da população não-cearense. É pernambucano, que é da minha família. Meu avó foi pra lá porque tinha uma briga em Floresta, de Novaes e de Ferraz e ele não queria que continuasse a merda com os filhos, então os levou pro Cariri.
Arnaldo - Eram duas famílias, Novaes e Ferraz?
X - É, eu sou Novaes. Meu avó levou a família para não continuar a merda. Aí teve que entrar a bosta de honra escrota de machismo ridículo, aí teve que voltar pro lugar. Deixou os filhos lá e voltou pra dizer que é homem. Essas coisas escrotas e que rolam mais ou menos até hoje. Hoje um dos meus maiores amigos é Kéops Ferraz. Nos encontramos um vez em São Paulo e comentamos que se tivéssemos lá teríamos nos matado sem saber. É meu maior amigo, só pra mostrar a imbecilidade dessa porra.
Arnaldo - E você começou num jornal de lá?
X- Não. Comecei a escrever essas porras de programa rádio.... Lá nego quer andar também, que é a melhor coisa do mundo, sair do lugar em que nasceu. Aí fiquei lá em pensão, depois fui pra casa de estudante. Melhor quando eu fui estatizado, tudo bancado pelo governo federal, virei um "Xicobrás". Era bandejão público, tinha bolsa na faculdade. Eu tinha uns 18 canos e era do caralho porque eu era um cidadão estatizado. A gente invadia a reitoria quando a comida piorava, era uma guerra fodida e do caralho, que nego hoje deixou isso muito barato. Quando o cara é preso não cobra uma regra de civilidade? Porque também na hora de educar, né? Hoje nego mata qualquer um e quando tem ficha na polícia já é desculpa pra matar. É uma escrotidão de Estado assassino filho da puta. Eu peguei, pelo menos, um Estado bancando meus peidos, meu pão com ovo de manhã, minha escola, minha existência. Só fui pra faculdade graças a essa porra, e era o mínimo que se cobrava na época. Hoje nêgo é cuzão, basta o cara roubar um galinha que já justifica ser morto. Uma escrotidão sem limite. Então graças ao Estado eu tive esse "Xicobrás" e foi do caralho. Pude estudar e beber cachaça com os caras interessantes. Porque a faculdade era uma merda, mas o encontro foi do caralho. Era Comunicação, mas eu também quis fazer Sociologia.
Marsílea - E quem era essa galera?
X- Bom, de quem está vivo... estudei com o Fred 04, que era da mesma turma, Renato L., que era do caralho, e um bocado de vagabundo assim... Meu grande ganho era na hora de beber cachaça, fumar maconha e andar com os caras e as meninas foda pra um cara que vinha matuto do interior. Em termos técnicos não aprendi porra nenhuma, mas tive uma história do caralho com pessoas foda. Bebia, fumava, mas pensava e lia coisa boa, e tirava onda. Fazia um jornal na época que se chamava "A peta", que é mentira num português arcaico. E era foda. Era um jornal de quadrinhos e textos doidos, esse foi o grande ganho, essa história de convivência. Não é a porra de Iluminismo, de faculdade de ter aprendido com o cânone, com a academia.
Arnaldo - Mas aí você virou um jornalista investigativo...
X- De merda inicialmente pra ganhar a vida. E ainda sou vez ou outro, ou quase sempre. Eu virei qualquer coisa do que tem que virar pra ganhar a vida.
Leo - Você foi direto pra redação?
X- Eu era um homem estatizado, eu era um "Xicobrás", então tive que pagar um pouco do cu público. Trabalhei um pouco na assessoria da universidade, na biblioteca... roubava livro pra caralho (risos).... Era aquela vida de bolsista de faculdade, aquela roubalheira, aquela coisa, meio pagando, meio consciente disso. No jornal da universidade encontrei uns caras bons pra caramba, bacanas. E depois fui ser revisor numa gráfica. Quando cheguei no Recife fui revisor numa gráfica chamada "Comunicarte". Foi quando eu adquiri esse pára-brisa aqui (aponta os óculos, risos), revisando coisa em corpo 6, balanço de usina em corpo 8. Primeiro isso, depois fui para um jornal de esportes chamado "Tablóide esportivo" que era uma puta de uma experiência legal, que era uma cooperativa dos caras mais antigos com cinco moleques, eu na época, mais cinco caras que tinham uma grana. Eu fiz uma história bacana, eu assinava a coluna chamada "Mamadu Bobó", que era um jogador africano. Era meio que tirando onda com o jogador. Me lembro do Betão, que jogou na lateral do Inter. O nome dele era Roberto Taylor (risos), que o pai era louco por Hollywoody, aí eu fazia essa coluna que era meio de tiração de onda com o jogador. Eu era setorista, cobria o Náutico, o Sport.
Arnaldo - E qual era o seu time?
X- Na verdade eu só torço pelo Santos, mas como eu mudei muito de cidade, em cada lugar que eu chego eu vou muito pra estádio, sou Sport no Recife, Casa em Juazeiro. Mas meus tios foram embora pro litoral paulista nos anos 60, então sou Santos. Eu odeio futebol, eu gosto do Santos, mas odeio Copa do Mundo, acho uma escrotidão. Eu odeio tudo que não seja o Santos, nem vejo os outro times. Acho ridículo os embates de futebol, Copa do Mundo.. gosto ou meio várzea ou Santos, não consigo gostar de outra coisa.
Arnaldo - E depois do jornalismo esportivo...
X - A polícia do "Jornal do Comércio".
Arnaldo - E naquela região é sinistro, né?
X - É uma bosta... como eu já tinha a viadagem da literatura, procurava ver Nelson Rodrigues e tal. Eu já tinha lido os caras, então já ia com esse filtro escroto e vagabundo, do classe medismo de ver uma certa arte. Mas tomar no cu a minha arte! Também tinha as matérias de comer gente, voltando o assunto. Era melhor dizer pra menina "é, Nelson Rodrigues fez polícia...", mas era um H do caralho, era um caô sem tamanho. Funcionava, mas era fraude pura. Eu devia ter uns vinte e poucos anos, acho que era pré-Miguel Arraes, antes dele voltar do exílio. Mas nada disso com precisão. Aí vocês vão ter que pesquisar no Google. Alias, foda-se o Google! Não me venham com essa senão eu não posso mentir, ô viado (risos)! Só dou essa entrevista com a permissão livre da mentira. Eu sou um homem flexível, minto pra caralho.
Arnaldo - Depois você virou um cara...
X - Virei um idiota (risos). Tive uns acertos de matéria por sorte e cachaça. Mas eu não tinha essa obsessão jornalística, eu queria ser um escritor, nunca quis ser um repórter.
Leo - Mas mesmo nessa época você continuava escrevendo, você tinha coluna em algum lugar, produzia alguma coisa?
X- Mas nego vai roubando sua alma quando você vai entrando pro mundo.. você vai vendendo sua alma, até com a própria desculpa da sobrevivência, não tem jeito, você vai sendo levado. É um idiota e burro, e tá numa redação. Porque jornalismo é a arte de emburrecer o homem e a mulher. É a arte de enfeiar a mulher e emburrecer o homem. Então essas meninas lindas chegam na redação e com dois ou três pescocinhos elas estão horríveis, cara (risos). Mata qualquer possibilidade de existência mais ou menos inteligente e de gostosura (risos). E não é a coisa física de estar gordo, isso não tem a menor importância. É o olhão de emburrecimento de redação. Notícia, plantão... Isso é uma idiotice. Por isso eu não quero ter filho, se for pra virar jornalista eu mato ele antes. É sério! Os caras se acham os fodões, mas são os mais burros da humanidade. Eu falo porque gastei minha alma da redação.
Marsílea - Mas você sentia isso no inicio?
X- É igual a cachaça, você sabe que derruba mas vai indo... É escrota a pretensão, o moralismo do jornalismo, a forma como acha que vai resolver o mundo. Não tem nenhuma qualidade no jornalismo, talvez seja a única coisa sem qualidade, velho. Eu tenho um primo que conseguiu enriquecer com merda, aqueles limpa-fossa. E todo mundo tirava onda com ele. E eu tô escrevendo uma novela, um romance, tomara que um dia eu consiga, querendo ser um Charles Dickens dos pobres, uma coisa assim, o cara ia na boléia com o cara e o pai metia o suga-merda lá. E o lindo é que a mãe dele tinha prisão de ventre (risos). E o cara enriqueceu com a bosta. Eu tô escrevendo uma coisa a partir dessa história do meu primo.
Leo - Você lê jornal?
X- Eu leio pra enganar os próprios jornais, mas eu não aconselho pra nenhuma família (risos)... afaste o seu filho da faculdade de jornalismo porque é emburrecedor. É melhor ser Marcola do PCC do que ser um jornalista. O jornalista não vai ter uma grande narrativa, não vai ser um escritor. Também não vai poder contar uma grande história, não vai poder porque o dono não vai deixar. Ele vai ser merda.
Allan - O mais escroto dos jornais é a pretensa imparcialidade...
X- Nunca houve isso, cara. Você escreve o que o dono quer, em qualquer lugar. No Pharol de Petrolina, na Vanguarda de Caruaru, na Folha de São Paulo, na Folha, no Estadão, Veja, você escreve o que o cara quer. Aí tem as brechas, quanto mais importante você é, mais você escreve o que o patrão quer. Por isso eu resolvi ser mais merda, depois de duzentas demissões, eu tenho o caminho mais confortável hoje que é ser menos importante para os jornais. Ou como uma tira, é menos importante, mas acaba dizendo mais do que quer. Ou faço uma crônica espremida no caderno dos esportes e acabo dizendo mais da minha vida e existência... porque você é mais livre. Quando você é mais importante, que é a ilusão de quem é editor, não sei o quê, você vai tomar no cu e escrever o que nego quer e diz. Carlos Heitor Cony escreve o que mandam, velho. Ou então levam pito e deixam de escrever.
Arnaldo - Quando você foi para o jornalismo já tinha uma singularidade literária e tal, e boa parte dos seus ídolos, Graciliano, etc, também tramparam em jornal. Graciliano fazia revisão...
X- É um cara que gosto pra caralho.
Arnaldo - Como você conciliou isso, trabalhar no jornal e ter os ídolos muito mais independentes?
X- Não tem escolha é meio entre a cachaça e a pobreza, você vai. Não tem trajetória. É lindo depois que morrer ler a biografia, mas não tem escolha porra nenhuma. Não é nada glamouroso, é uma merda.
Arnaldo - Não tem nenhum orgulho dessa época, das coisas que você conseguiu?
X- Claro que não.. mas me fez ganhar dinheiro. A entrevista com PC Farias...mas nada disso serve pra nada. Sabe o que vale nessa porra de existência? É a narrativa de aventura, é o Gulliver que sobra, é quando você espreme tudo e tem uma narrativa de aventura da vida, aí é Caninos Brancos de Jack London, é você perdido numa selva qualquer, não é objeto de um jornalista. No tempo de PC Farias eu fui pra Maceió e cheguei a ficar quatro meses lá. Aí, tava ali no Othon... a minha missão era para a Folha de São Paulo...
Leo - Não tinha uma coisa de ficar meio dischavado, pra não despertar muita atenção, como era?
X - Como eu tinha acesso ao cara, por razão louca de cachaça...
Leo - Conta primeiro a história, como você conheceu o cara?
X - Eu conheci porque quando a imprensa ficava atrás de advogado, de fulano Oficial de Justiça, eu fui pra Maceió e me enturmei com o mordomo. Diziam que eu comia o mordomo, Joel. Porque ele tinha uma motocicleta e eu passeava com ele em Maceió, o cara me falando na brisa ao vento... (risos). Dizem que ele virou maître num hotel em Brasília... o que é a merda do repórter de hoje, é que eles desprezam esse oitavo escalão. Eu colei nesses caras lá, nos guardas, nos cachaceiros que moravam perto do PC, nas lavadeiras, faxineira que trabalhava com ele. Chegar no Joel foi um salto, o mordomo.... a Folha mandava não sei quantos mil caras pra Londres, eu poderia ter sido oportunista e pedir pra ir também, alegando que PC estava lá, ou pedir pra ir não sei pra onde... eu tive missão também pra Tailândia e Bangcoc, as terras da massagem de doze mulheres... tentei ir do aeroporto para o hotel e foi a coisa mais difícil da minha vida. Eu falando o inglês do Crato (risos), os caras sem falar inglês nenhum... aí eram dois irmãos taxistas e eu tentando ir pro hotel, e os caras me levando pra putaria. Até uma hora em que eu tive que dar uma olhadinha, né? Não tinha como não comer gente.. era o único lugar que não tinha como não comer gente. Tudo que Crato não me deu, Bangcoc deu, velho (risos).
Arnaldo - Mas e o PC?...
X- Eu tava falando dessa coisa de não acreditar em fonte, hoje é só Google e banco de aspas. Ninguém gasta sapato, ninguém vai pra rua. E se você chega contando história da rua, nêgo não dá bola. Os editores idiotas perguntam o que isso tem a ver com a realidade, quando é a realidade que foi esquecida. De verdade, eu acho que o jornal vai acabar, eu torço por isso. Antes do papel higiênico eu limpei muito cu com jornal. Eu torço pra que o jornal acabe porque não tem mais sentido... Você pega os portais.. a não ser Allan, Adão, Laerte e o horóscopo, não tem mais nada... A notícia tá no dia anterior e a capa, a foto, é a mesma. Ou o jornal encontra um meio de contar história, que ele perdeu a vontade de contar história, de botar o repórter pra viajar. Hoje jornalismo é de agenda, o cara que vai ser ouvido na CPI às 16 hs. É projeto de agenda, não tem nada que signifique a vida real de nenhum de nós, é agenda.
Arnaldo - Aí você começou a se juntar com o pessoal do mangue beat e aí todo mundo começou a ter mais projeção pro resto do Brasil...
X- Não, não.. nem eu nem eles. Isso foi porque eu morava em São Paulo e os caras iam na minha casa. Eu ajudava, no que podia, na assessoria de imprensa. Eram amigos, eles chegavam lá em casa pra ficar lá. Minhas namoradas ficam putas porque a gente não podia mais fuder direito.
Leo - Mas você já os conhecia antes?
X- Fred, o Chico eu conhecia um pouco e depois... era do mesmo conglomerado do crime.. na boa, eu caí no jornalismo porque não tinha outro jeito de ganhar dinheiro, mas eu queria ser um escritor louco. Eu queria ser um Henry Miller, pra dizer o mínimo. Jornalismo era o caminho, mas eu não tenho uma construção de carreira jornalística, eu não acredito nisso, caí nisso, e ganhei dignamente, comprei uma casa pra minha mãe lá em Juazeiro, me agradece até hoje, isso foi do caralho. Comprei muito ácido por conta de bons salários, mas nunca foi a minha... até hoje, voltando lá pra consultoria de rádio, eu escrevo conselho pra revista UMA, pra revista de mulher, pra ganhar dinheiro, mas não é jornalismo. Se eu pudesse ter um reencontro com o jornalismo eu mandava tomar no cu. Pobre tem duas profissões literárias no Brasil, jornalista ou advogado. Mas escolha, nunca. Eu queria ser Henry Miller e me fodi. Você acha que eu queria estar em plantão na casa do PC ou na porta da polícia federal esperando não sei o quê? Não.. eu queria escrever "Trópico de câncer". As biografias são editadas e limpas, mas a vida é só angústia e frustração, velho. Aí vem um filho da puta como o Ruy Castro e deixa todo mundo lindo e gênio. Mas é tudo escrotidão e cachaça. A vida é confusão, é merda, é Pimenta Neves. Aí depois vem as edições, o calendário e resolve qualquer bosta, as histórias ficam lindas. Isso serve pra todo mundo. Não há biografia boa, ela é salva.
Arnaldo - Aquele Nova Geografia da Fome é do caralho, mostrou pro jornal que você pode fazer uma matéria investigativa, barata...
X - Tem dias em que só me sinto bem quando acabo de trabalhar e vou tomar minha cerveja tranqüilo, olhar uma mulher... Eu não tenho orgulho da escrotidão. Tem hora que eu acerto uma frase, e é do caralho. Normalmente bêbado e de madrugada, de manhã eu já acho uma bosta. Todo homem é gênio de madrugada. O único momento de gozo, velho, é quando uma mulher toca uma punheta ou esse segundo de auto engano bêbado, depois vai ser uma bosta e ninguém vai ligar. Mas eu acho lindo essa hora da merda, por isso comecei a acreditar mais no auto-engano, escrevendo algo às quatro da manhã, bêbado achando que aquilo é a História da Infâmia do Universo, aí no dia seguinte você vê que é uma merda. Tudo nessa gana de achar que é genial e depois desconstruir, porque é você ou um outro que vai fazer isso. Eu acho que não tem engano mesmo, é tudo angústia e aflição, a vida vai ser sempre isso. Salvo o quê? Buceta, puteiro, cachaça. Aí a merda, a existência é tão filha da puta que não dá corpo pra você segurar isso para o resto da vida. Aí você não vai mais atrás da buceta, da cachaça porque tem artrite. Eu gosto muito de um anúncio de artrite que é um tiozinho balançando uma criança no parque, aí num momento ele sente a perna. A vida é isso, um anúncio de artrite, velho.
Allan - Eu li uma entrevista que você estava transando com uma menina que dada ao contorcionismo e numa câimbra ela achou que você era um acrobata...
X- Eu acho que a grande novidade do mundo hoje é falta de potássio e broxada. Que novidade há na grande foda? E essas meninas novas, fazem tudo que elas reclamavam da gente, deixam toalha molhada em cima da cama, fazem uma bosta geral no seu quarto. Mas nesse dia aí eu tava com uma câimbra monumental, aí levantei a perna e desci como naquele filme do Hitchcock, "Intriga internacional", e aí foi a consagração, mas o que era..
Leo - ..você gritando de dor...
Arnaldo - E aquela cena genial do Beto Brant no cinema, do filme "Um Crime Delicado"...
X- É velho, aquilo eu gostei muito de fazer. Eu virei o homem-baga do cinema nacional, né? Os amigos chamam, vamos beber...
Arnaldo - Você é amigo de todos esses caras que estão fazendo um puta cinema agora....
X- É.. agora eu fiz um punheteiro, dessa eu gostei. Eram uns dez punheteiros e nenhum levantou o pau, inclusive eu (risos)...
Allan - Era pra bater punheta mesmo?
X- Era, a gente tentava... mas ninguém conseguiu. Era uma cena, e o Cláudio Assis, que é um ignorante.... O filme é o "Baixio das Bestas", é a história de uma menina de um posto de gasolina que o avô vende pros caminhoneiros baterem uma punheta pra ela (risos). Ele cobra um real.... Pô linda, depois até bati uma punheta para ela, já em casa, mas na hora porra nenhuma. Era eu e mais uns nove animais lá do Recife e a gente tentando e envergonhado, com a mão dentro da calça, mas sem querer mostrar o pau, maior merda, velho. E a mulher lá, linda, linda, gostosa... E era no quintal de uma Igreja. Agora veja o animal, colocou a menina lá no.. no nordeste chamamos de oitão da Igreja, nua, linda. Quando ela tirou o roupão, uns peitos da porra, buceta, tudo direitinho e os dez lá... a gente lá... já tinha bebido pra caralho... dez e nenhum...
Arnaldo - Aquela piada do Adão, "falência múltipla dos órgãos"....
X - Na ficção a gente tava pagando ao avô dela pra pagar punheta, erámos dez... e nada....
Leo - Mas essa cena ficou no filme?
X- É, vai rolar uma punheta frustrada. Mas é linda... não se engane com o que sair no cinema (risos), eram dez homens broxas com uma mulher gostosa da porra, muito gostosa... Veio da Paraíba. O problema é que a gente é amigo do pai dela, eu e Claudão. De madrugada ligamos pra ela nos desculpando, dando a nota fúnebre, venho por meio desta, dizer que não foi culpa de vossa senhoria a broxada monumental em público (risos)... Foi a pior coisa que eu fiz depois de 8 ½ de Fellini (risos).
Arnaldo - E o blog ("O Carapuceiro"), você manda todo dia... você acha legal essa coisa?
X- Tento que é pra recuperar o tempo da bananeira perdida..
Arnaldo - É lugar pra comer mulher então?
X- Não, essa coisa de comer mulher não é tão objetivo assim. É que eu sou tão feio que quando eu como uma mulher vira notícia (risos). Se um cara lindo come uma mulher é um rodapé de página, mas se o feio come uma mulher e ela é linda, aí é manchete.
Arnaldo - Você já comeu alguma celebridade, alguma mulher que seja assim...
X- Comi porra nenhuma. Eu odeio celebridade... E dá azar comer uma mulher pra quem você já bateu uma punheta antes (risos)... eu nunca fiz uma punheta pré-crime, porque dá um azar da porra.
Arnaldo - Li que você gosta de namorar.... você é um cara pra casar?
X- Eu caso, mas eu não sei explicar...
Leo - Mas você fala que é pra casar, diz que quer convivência... casamento tem futuro?
X- Tem no sentido de eu gosto de você pra caralho, vamos fuder e beber cachaça junto no boteco, ler umas coisas....
Leo - Mas até que a morte nos separe não existe?
X- Não...
Allan - Você teve um momento, começou aquela coluna Macho na Folha e aí ...
X- Essa coisa de eu no jornalismo é um engano duplo, de quem me contratou e de quem eu fui servir, porque eu nunca fui um jornalista de verdade. Eu caí nesse mundo e aceitei, mas eu nunca quis ser um repórter, um jornalista. Quando eu vim de Juazeiro eu queria ser apenas um filho da puta, escroto e bebedor e que exista de forma humana. Acho que no jornalismo os caras que adoram ser denuncistas... esses caras não têm moral pra porra nenhuma. Eles roubam uma nota e são tão escrotos quanto o Lula.
Arnaldo - E jornalistas que você acha exemplares?
X- Tarso de Castro que já morreu, Fausto Wolff, esses caras honrados, e claro que falando isso você não vive, tendo quarenta e poucos anos. Nêgo desconfia, mas como eu tô cheio de trabalho pra fazer, foda-se. Mas eu acho que esses caras são foda. Eu sempre fui um bundão, de uma certa maneira, de quando no estado de miséria, eu negociei a vida inteira... Mas eu invejo esses caras que dão porrada. Eu já escrevi pra revista de cachorro, gay, mulher, doido, menino... Mas tem uma hora em que se você pudesse não escreveria. Hoje mesmo eu acordei numa ressaca miserável e tive que mandar a porra de uma crônica da Copa pra Folha. Eu não sabia que porra ia escrever. Eu tinha dado uma volta com o Mário Bortolotto, tinha encontrado o filho da puta lá no Planeta, lá embaixo.. aí eu não me lembrava como tinha encontrado com ele, então vi uma porrada de bandeira do Brasil e escrevi: "a pátria de shortinho verde-amarelo" ... É uma merda ganhar a porra dessa existência e os escrotos não falam. O grande épico da humanidade, o grande Ulisses é não encaretar, essa é a maior dificuldade do mundo, porque a gente cai numa cilada. Primeiro você se acha louco, acorda e se dá conta que mal consegue escrever o texto... Mas ao mesmo tempo o que me move, o que me faz escrever de alguma forma é toda essa putaria. Então a gente vai morrer disso, desse dilema escroto. Uma Quinta eu escolhi não beber, que é um momento raro durante séculos, aí mandei meio Lexotan e já tinha mandado uns quartinhos – porque eu acho que o bom da droga é você ir pras drogas menores – pra não beber. A gente tem q respeitar nossas próprias agonias, nossas próprias angústias, e é muito difícil respeitar e ter coragem pra isso, porque implica outra pessoa, filho, existências... é uma merda.
Arnaldo - Você inclusive falou que é contra o Viagra...
X- Se a mulher não me respeitar pela broxada ela vai me respeitar porquê (risos)? Existem mulheres malas pra caralho, nada que uma grande broxada não resolva também (risos). Uma broxada monumental resolve muita coisa pra sua vida, você manda embora muita coisa que você não quer. Queria agradecer a vocês por recuperarem minha memória. Tô virando meio Proust, meio gay...
Allan - E aquela história de dar pra traveco e sentir os peitos nas costas..
X- Eu nunca dei, nunca deixei o pau entrar, mas deixei enconstar. Mas é lindo velho, peitinho aqui é lindo. Olha, o maior travesti do mundo, o mais lindo de todos se chama Marcinha, da praça Roosevelt. Ela tá na Alemanha agora, me mandou um mail dizendo isso. Essa é a mulher mais linda do universo. O que rola é a falta de medo, a diversão. Passar perto e ela mostrar os peitos, uma coisa de amor, até porque ela precisa ganhar a vida.
Arnaldo - E aquela cena do "Crime Delicado" foi com um travesti...
X- Os caras falaram que eu sou um cara da noite e que meu personagem ouve as meninas e vai pro bar...
Arnaldo - Porque nego te tira de machista, mas você, pelo contrário...beija a mão total..
Leo - É um esquema Bukowski, tudo para elas abaixarem as calcinhas?
X- Dizer isso ficou meio caricato, né? É apenas um cara que demorou a chegar nas mulheres e depois que chegou quer tirar o atraso. O sudeste em geral fala que o nordeste pega muito subsídio, eu quero o meu em bucetas. É uma escrotidão o que os caras falam, porque o sudeste também fode o nordeste, e somos escrotos, a FIESP é uma escrota, a Firjam é uma escrota, e se tem subsídio eu quero o meu em buceta.
Arnaldo - E você já foi ameaçado, já teve uma treta foda com um poderoso?
X- Tem nego que é mais poderoso, mas é anônimo. O que é perigoso de fazer matéria investigativa: empreiteiro, que não seja de grande empreiteira, que não é burro. Você pode esculhambar com o ACM por duzentas horas, não acontece nada.
Leo - Você não falou da suruba com o PC...
X- O PC, velho, que era o inimigo número um do Brasil, o cara tava lá fora, naquela coisa fudida. Mas quando eu ganhei o cara pra ter a entrevista dele, foi tomando whisky. Primeiro na cidade de São Paulo, eu cheguei e ficamos tomando whisky até às quatro da manhã, e depois disso, tanto faz ser PC, como Allan Sieber, Lou Reed, Nick Cave, virou bosta a humanidade, qualquer porra, nivela, vira a mesma coisa. A existência é isso! O que eu achei extremamente humano nele, e lindo é que num puteiro em Curitiba, eu tava atrás dele, e ele escolheu a mulher mais feia. Eu tava com duas mulheres no colo, dias galeguinhas lindas da porra, era uma morena e uma loira, pra ser meio projeto Benetton (risos). E PC, velho, pega a mulher mais feia do puteiro, rouba o Brasil e é generoso na hora de colocar uma mulher no colo, velho. Genial! A mulher toda largada.. ele me ganhou nesse dia. Há uma generosidade no fim da linha. Por isso que eu odeio jornalista, porque nunca julga a existência interna, são os caras filhos da puta com as mulheres, na rua, roubam onde puder... Mas achei de uma humanidade linda colocar uma mulher aparentemente baranga – porque não existe baranga - colocar no colo e ser feliz.
Arnaldo - Aí tem aquela frase, de que o poder é o maior afrodisíaco...
X- O poder do mundo é a buceta, velho.
Arnaldo - Inclusive, como foi aquela sua matéria no puteiro da Jeanne Marie Corner, como foi essa porra?
X- Eu tive sorte, porque a mulher é do Crato, ela podia ser minha tia, mas não é. Quando eu falei que era do Crato abriu-se a porta, o mundo. Contou muito eu ser do Crato.
Arnaldo - Você comeu as meninas?
X- Acho que todo jornalista, todo repórter é idiota, inclusive eu naquela matéria, mas o bom do jornalismo é você mostrar que por vias totalmente transversas pode narrar mais a história do que um "disse ontem o presidente.." tomar no cu, porra! É burrice ter de narrar o mundo por isso. Não é bom pra vender jornal, não é bom pra nada. Nem o caretismo gosta. Outro dia vi uma matéria do Fernando Henrique encontrando com o Serra, e o Alckmin, aqueles escrotos da Opus Dei. Eles foram a um daqueles restaurantes fodidos em que você paga R$900 por um conhaque. Quem fez a matéria não disse o que eles comeram, só estavam ali para dizer a escrotidão que eles estavam provocando, que político escolhe aquele lugar pra jantar. Aí já se mata a existência, e pode ser pra Lula, pra qualquer um. Porque você colocar essa simbologia dos lugares que as pessoas freqüentam que é a bosta, é nisso que está a história. Nem que tenha o lado careta, mas que tivesse ao Domingo uma matéria que contasse a crônica da semana de um lugar. Mas é só "disse ontem". Velho, nenhum entrevistado vai se confessar. Eu odeio essa matéria de Brasília pra Trip, eu não entrevisto ninguém, ou eu tô de lado ouvindo... entrevistar gente, você já gera a frase dele. Velho, cola na mesa vizinha e vai beber. Eu odeio entrevistar gente, eu prefiro mentir.
Arnaldo - Eu achei que nego fosse te dar porrada porque...
X - Os caras mandaram uma porrada de coisa horrorosa, mas tem uma coisa muito clássica em São Paulo que é mandar uma carta com merda. Isso eu recebi nessa matéria. Isso é um clássico, existe em São Paulo há vinte anos no mínimo. Você pode até descobrir quem é, né? Pega uma impressão digital de cu... isso é homossexualismo em estado livre. Eu amo homossexualismo, desde que eu não dê, porque no interior quem come não é viado.
Arnaldo - Mas e agora, você tá escrevendo alguma coisa pra publicar?
X- Tô tentando dar um truque, mas com muita dignidade.
Marsílea - E o seu trabalho na Editora do Bispo?
X- Eu sou sócio, não capitalista. Eu sou sócio na parte do trabalho.
Marsílea - E do conteúdo?
X- Que conteúdo? Do trabalho. Eu chego tão ressacado que nem sei se aquilo é conteúdo. Pela primeira vez na vida eu tô trabalhando com a única mulher que entende minha ressaca, eu chego seis horas da tarde ressacado e ela diz, "vamos beber mais". Essa é a mulher de verdade. Nossa história só existiria assim... Senão não teria sociedade. E ela é a coisa mais monstruosa no sentido de entender minha ressaca...
Marsílea - Vocês se conheceram num trampo?
X - Eu namorei a filha dela. A única pessoa que me deu alguma coisa na vida, uma mulher do caralho. Eu chego lá na hora em que eu quiser, essa mulher sabe o que é um homem ressacado, do fundo do coração dele.
Allan - E a gaveta do Peréio?
X- Aliás eu vou pedir ajuda pro velho. O livro é tão louco, vamos fazer algo juntos, velho. Ele (aponta o Allan) desenha.
(...)
Arnaldo - A gente brigou com o Fausto na última F. E foi uma merda, você chegou a dar uma olhada na revista?
X- Todos nós somos uns bostas de uns viados. Fausto Wolff tem um passado mais glorioso, ele tem mais razão de brigar com vocês. O cara é alguém que eu respeito, que acho .... o cara é muito foda, velho.
Leo - Mas ele tava meio amargurado com a parada do jornal...
X- Mas todos nós somos, velho. Se tocarmos a sanfona do ressentimento, velho, ela toca por duzentas horas.
Arnaldo - Mas você tem alguma bronca de algum lugar em que você trabalhou, você gostaria de falar aqui, publicamente?
X- Eu acho isso pequeno pra esculhambar com os patrões... claro que eu vou falar, com muita dignidade, se algum amigo meu me chama pra testemunhar na Justiça do Trabalho, é claro que eu vou falar, mas não vou me arvorar. Eu me acho muito mais importante que esses caras, eu como mais mulher sendo mais feio, mais pobre. Não me interessa, cara. Mas acho que ele tem razão. Dono de jornal sempre vai ser escroto porque querem ser Deus, querem o vento a favor deles, mas não é isso que acontece. O vento, velho, é a favor de qualquer um. Eles querem ser donos do vento, querem comprar a brisa.
Arnaldo - E quem são seus ídolos? Vale qualquer um..
X- Marcola do PCC, Lampião. São caras que movimentam a história, seja pro bem ou pro mal. Eu amo esses caras que mostram que a história está viva, seja os estudantes lá da França, seja o Bruno Maranhão. Esse é um grande homem, fez uma quebradeira filha da puta. Esse é um doido da Casa Grande, da burguesia que vai lá e bota fogo no Congresso. Eu amo esses caras que mostram que a História está viva.
Arnaldo - E o governo Lula?
X- Eu acho que é uma merda pro que esperavam, mas eu quero que a Opus Dei geral do Alckmin tome no cu.
Arnaldo - Mas rola uma decepção grande?
X- Rapaz, nunca um homem no Brasil fez uma campanha limpa. César Maia é o maior ladrão, Garotinho...
Leo - Você vota?
X- Eu já votei umas duas ou três vezes na vida... Eu votei no Lula no primeiro turno e no segundo não porque eu tava trabalhando. O Lula é uma merda, mas nunca direi que é um escroto. Entre ele e Alckmin.... essa Dona Daslu, voto Lula sem nem crítica, sem pensar. Eu sei que político é uma bosta. Minha crítica foi nos anos 80.
Leo - Alguma coisa salva o Lula no seu conceito?
X- Não, nada. É apenas igual a Fla X Flu, eu quero que Geraldo Alckmin se foda, só por ser por honra, pronto. Eu sei quem são meus inimigos, e esse cara não é do meu mundo, é da Opus Dei.
Leo - O Alckmin foi quem deu proteção aos seqüestradores da filha do Silvio Santos. Ele deu garantia de vida e o cara morreu duas semanas depois, no presídio.
X- Cara, vamos colocar a história do Alckmin na roda, eu tenho um cuidado da porra com o moralismo....
Leo - O Collor era um desses casos de playboy, tinha caso até de estupro..
X- Nesse caso eles seguram até hoje. Mas pra não ser moralista é isso, quando é fodido botam no cu do cabra, quando é autoridade aí tem o maior cuidado.
Arnaldo - Tem um tempo que você fala o que pensa. Em alguma oportunidade você já achou que falou demais?
X- Hoje em dia não mais, velho. Eu arrumo confusão hoje em porta de bar com segurança, às vezes os caras são até amigos, mas não é meu objetivo. Não saio de casa pensando nisso. Eu tenho uma coisa insuportável que é a tese, por exemplo, eu adoro falar que o Chico Buarque é um compositor de merda, literatoso e num lirismo chinfrim que não é muito bom. E as meninas ficam nervosas. Tenho tese da semana, das estações, eu tiro onda, velho. Eu uso óculos, não brigo fácil (risos). Já arrumei muita confusão, já apanhei muito e nem sabia se estava batendo. Nunca tive um soco autoral (risos). Em confusão de noite eu já briguei pra caralho, é um clássico da minha existência. Mas eu saio de casa pra vingar a bananeira, eu sou que nem terra de cemitério, gosto de comer gente, velho (risos).
(...) MUDANÇA PARA 3ª FITA.
X - Não quero ler nada, velho. Eu quero que você me melhorem até.. se puder radicalizar ali, me fazer mais merda ainda... Isso aqui não existe velho. Só um otário diz essa porra.
Arnaldo - Só não pode ser melhor que a do Fausto...
X- Fausto é meu ídolo... Eu amo o cara, velho...
Leo - Às vezes que a gente foi conversar com ele foram do caralho. A gente ligou o gravador.. aquele dia mais pesado... rolou uma parada mais amarga mesmo...
X- Aquela entrevista é linda, velho.. Eu li todas as entrevistas...
(...)
Marsílea - A gente queria te levar para o apartamento, mas achou que podia ficar chato.
X- Tudo bem.... filhos da puta... P.S.: fui injustiçado. Bota um P.S., vocês gostam mais do Fausto do que de mim... não, eu amei.. a seqüência é o medo e o amor pelo cara, velho. É um dos maiores jornalistas que eu admiro no Brasil, velho... Eu amo esse filho da puta, eu li tudo o que esse homem escreveu, velho....
Arnaldo - Nesse dia foi muito bom...
Allan - Foi complicado...
Arnaldo - Foram 3 garrafas de whisky... Muito bom você ver ele acelerado...
Leo - Uma pergunta que a gente não fez na entrevista, mas onde você estava quando Chico Science morreu?
X- Eu estava em Recife, eu tava com Lula no apartamento dele, perto do cara mais feio do mundo... bebendo... O Chico tinha virado um bosta porque é humano, o sucesso... vai pro estrangeiro e tal.. mas ele tinha feito as pazes com a gente, porque a gente tava muito puto com ele, e tinha tocado uma noite linda de jungle... ele era viado e gostava de jungle, eu me amarro em jungle, velho... mas a gente tava muito puto com ele, porque em Recife ninguém tem bom humor com ninguém, a gente guarda ressentimento.. a vida.. todo mundo é Fausto Wolff em Pernambuco.

* F - Revista capitaneada por Arnaldo Branco, Allan Sieber e Leonardo
Posso ACREDITAR que achei realmente engraçada aquela piada, e que eu consequentemente QUIS rir, mas não. É meu cérebro quem COMANDA todas as reações nervosas e musculares do meu corpo. E MEU CÉREBRO funciona como um motor, de forma absolutamente IRRACIONAL, respondendo a estímulos químicos que surgem devido a FATORES EXTERNOS. As vibrações sonoras da piada chegam ao meu cérebro através de meus ouvidos e são traduzidas em ATIVIDADE ELETROQUÍMICA. As regiões do meu cérebro responsáveis pela linguagem RECONHECEM o significado das palavras. PERCEBENDO que a carga semântica é jocosa, sou CAPAZ de entender a piada. Meu cérebro REGISTRA a hilaridade da piada, e então rio. Mas não DECIDO rir conscientemente. O ESTÍMULO da piada é que teve como resposta meu riso.

Temos a ilusão do LIVRE-ARBÍTRIO como uma rocha firme para fundamentarmos nossas decisões. Mas acho que somos todos vítimas de imposições inconscientes, e estamos completamente impossibilitados de interferir nos efeitos finais de uma causa. Você mesmo não quer tirar qualquer conclusão desse texto, mas ao terminar de lê-lo seu cérebro já terá formado alguma idéia a respeito e eu acho que você vai acabar comentando alguma coisa aqui.

[Essa filosofia democrática das pequenas coisas me encanta.]

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

NATURA

A cor verde condensada
de hipnotizar passarinho
me lembra um cheiro de mato dormindo.

Respeito o reino flora
pois este contém sozinho
toda cor, toda linguagem.

A árvore idosa
assume outras deficiências
perde galhos, acentua a própria paralisia.

Nada, no entanto, inspira dó.
Mais voláteis somos nós
gastando tantos sapatos
perdendo nossas folhas.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008


Ir decompondo meus vetores pouco a pouco. Tirar de mim qualquer intenção inconsciente de seguir um rumo que eu não conheça. Acreditar que é possível chegar lá pelo caminho que os homens criaram e tentar ser e estar da forma convencional.

Não poder prever e ficar mais conformado. Não poder medir e não se sentir a pessoa mais culpada do mundo. Saber que todos têm razão em seus discursos, lembrar de quando se quer ter também.

Talvez dizer tudo o que se pensa. Aceitar que prender o choro não compensa. Discutir, brigar pra valer, sair na porrada, ferir e ser ferido, pôr sangue pra fora, gritar, maldizer e ser ruim como nunca se quis. Ser ruim pra valer e poder fazer muito mal para alguém [que mereça] por uma vez nessa vida. Só pra ver se depois o remorso é realmente maior que a sensação de alívio imediato.

Ir decompondo meus vetores pouco a pouco pra saber que caminho era o que eu deveria ter tomado antes de prever medidas e medir previsões.

* Sobre fazer mal a alguém, não há qualquer pretensão, apenas necessidade.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Salvação provisória

Dentro de poucas semanas seremos bombardeados pelo axé music e todas as suas derivações rítmicas. A mídia televisiva vai nos enfiar goela a baixo todo o seu precioso conteúdo preparado exclusivamente para esse período. E muitos, obviamente, irão engolir. Na prática é impossível chegar a um denominador cultural comum, mas o que chama a atenção é o poder que os dias carnavalescos têm de transformar tantas pessoas e de suprir essa sede de boas sensações que elas têm. Permanecer irredutível é difícil, mas render-se ao ritual é mais difícil ainda. A sorte é que em Saint Lake City ainda é possível fugir dessas manifestações, graças a Deus, e na pior das hipóteses é só se deslocar uns 50 km para o norte que lá está a Serra do Cipó. Longe de tudo. Nos guardando pra quando o carnaval passar.

Mas esse blá blá blá do primeiro parágrafo foi apenas para introduzir minha anunciação: o Antídoto para Fevereiro. Encontrei o “Fome de Tudo”, último CD da Nação Zumbi disponível para download e resolvi enviar o link pra todo mundo que eu conheço e não conheço. É ou não é um bem para o povo brasileiro? Dá pra criar resistência à pandemia sonora que está por vir e ainda lavar a alma e os ouvidos.

Não precisa agradecer gente... que isso...

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

2007 me gusta muito!!

Este ano que se encerra, foi muito especial pra mim. Foram várias conquistas no campo do trabalho e diversas premiações em salões de humor pelo Brasil. E hoje ao dar minha passadinha habitual pelo site Brazil Cartoon me deparei com a notícia que, ao lado de grandes desenhistas, eu havia sido um dos destaques do ano!
A relação tá no link abaixo!!
É isso aí!!
Um abração pessoal!!
http://humor.uol.com.br/album/talentos_2007_album.jhtm

sábado, 22 de dezembro de 2007

Iluminado

Existem pessoas iluminadas no mundo. Há quem consiga converter sentimentos em som. Uma dessas pessoas é Andy McKee. Eu - na minha pequena experiência musical - nunca vi nada parecido. A música se chama Nakagawa-san. É uma daquelas melodias que quando você ouve o tempo parece parar. Sem igual.


Longa vida aos que buscam fazer música de verdade.

(Inspirado no Blog do André)

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Caso conjugal


Malvina era alta, branca, tinha olhos castanho-claros e cabelos pretos como a noite. Não possuía vícios além do vício da precaução: pensava que cuidado em excesso a privaria sempre de desgostos na vida, distúrbios da saúde, constrangimentos nas relações sociais.

Conhecera Benedito num lugar extremamente incomum, do qual não se lembrava mais e para o qual nunca havia dado qualquer importância. Chegou a hesitar inúmeras vezes antes de aceitar definitivamente o tímido pedido de casamento lhe feito pelo simples rapaz.

Benedito era pobre, baixinho e mal instruído. Um indivíduo sem lugar no mundo. Aprendera com a própria vida a julgar o certo e o errado, e a optar – segundo a conveniência – pela opção que lhe prometesse mais sucesso.

(Juntos, Benedito e Malvina renderiam a elaboração de romances, crônicas pomposas, verdadeiros contos que, ao contrário deste, fariam jus a beleza de suas histórias).

Possuíam personalidades que desobedeciam ao significado dos nomes que carregavam: Malvina, de má não tinha nada. Pelo contrário, só sabia fazer o bem, pensar o bem, querer o bem para os outros. Era capaz de mentir, assumir culpas de outras pessoas, render discussões até as ultimas conseqüências só para que um inocente não fosse condenado. Repugnava a injustiça. Jamais aceitara a desigualdade própria do mundo. Pensava sempre que, somando forças e conservando esperanças, seria possível mudar as coisas um dia.

Benedito já era um sujeito pronto para amaldiçoar a qualquer um que, distraidamente, lhe desse um pisão de pé na fila da padaria, ou lhe desse um esbarrão na calçada. Carregava um tipo particular de maldade consigo. Julgava as atitudes de todos aqueles que o rodeavam. Condenava pensamentos que fossem contrários ao seu conservadorismo. Era autoritário, metódico e, mesmo que inconscientemente, preconceituoso. Nem o pobre Fusca, um vira-lata amarelo de pequeno porte que Malvina havia trazido para casa depois de encontrá-lo ainda filhote, na rua, num dia de chuva, escapava de suas pragas:

- Vira-lata infeliz! Se tivesse consciência da insignificância da própria existência se enfiaria na frente de um caminhão em alta velocidade... E Fusca o olhava nos olhos, com um olhar de compreensão. Como alguém ouve e absorve o peso de cada palavra de maldição. E de certo era o que acontecia. Fusca compreendia, como é comum a todo cão entender, o que Benedito dizia.

A vida para o casal não era difícil. Malvina era funcionária pública efetivada. Conhecia sua repartição melhor do que a si mesma, melhor do que sua casa, melhor do que seu marido. Dos anos dedicados ao trabalho não esperava nenhum reconhecimento. Sabia que daquela sala cercada por quatro paredes de divisórias beges nada de melhoria para sua vida poderia surgir. No entanto, não se preocupava. Não corria riscos de ficar desempregada como grande parte das mulheres da mesma idade. Já não tinha ânimo algum para prestar outro concurso público para um órgão mais importante que lhe oferecesse um cargo melhor. Não pretendia ganhar mais porque a força de acomodação que vive impregnada no cotidiano já havia sugado por completo a sua mais saudável ambição. Não pretendia ganhar mais porque não tinha idéia de com o que gastar. Qualquer bem que ela desejasse ou precisasse adquirir caberia dentro das mesmas prestações através das quais ela havia comprado tudo o que, até então, possuía na vida.

Benedito, pelo contrário, sabia bem o que queria. Já havia tomado tantos calotes e dado tantos outros que não fazia mais conta do tempo ou dinheiro perdido. Passara a maior parte da vida apostando em negócios que deram errado, mas jamais desistira da idéia de ficar rico com o comércio. Já havia aberto lojas de tudo o quanto fosse mercadoria, nos mais variados pontos onde o comércio se aquecia. Tudo em vão. Sua vida se resumia em tentativas que eram alimentadas pelo fracasso. Talvez por isso a próxima tentativa fosse sempre mais repleta de esperança. Talvez pela sua inquietude e persistência no próximo negócio ou até mesmo pela sua dedicação e amor ao trabalho, se justificasse seu comportamento enquanto marido. Nunca quisera ter filhos. Nunca dera a Malvina a chance de contra argumentar nas discussões sobre o assunto, à tardinha, depois do trabalho.

Já se havia passado mais de nove anos de união e a relação do casal parecia estar bastante saturada. O tempo fez com os dois o que faz com todo mundo. Mostrou todos os lados, todos os ângulos do ser, sem cortes. Mostrou, de um para o outro, as cicatrizes feitas por eles mesmos, as esperanças mortas, escritas como um dístico na testa do outro. O tempo, esse estraga-prazeres, levou as poucas surpresas embora. Revelou que o que havia por descobrir já havia sido descoberto. Até mesmo o “por fazer”, que carregava um caráter de obrigação, perdeu o peso. Como uma parede de sala por pintar, que o passar dos anos acaba amarelando e o amarelo se torna uma cor de conformação, uma cor de “deixa como está que é melhor nem mexer”.

- Malvina, o que é que você tanto lê nesses panfletos, criatura?

- Não são panfletos, Benedito. São editais de concursos públicos federais. Acabaram de ser publicados. Por que é que você também não dá uma olhada? Pode ter coisa que te interessa aqui...

- A única coisa que me interessa é o comércio, você sabe.

- Sei sim. É por isso que sua vida continua assim. Estagnada.

- Estagnada não! Para se atuar no comércio é preciso ter tino pra coisa. Faro apurado e

acima de tudo sorte! ...o que tem me faltado ultimamente é a sorte, mas paciência! Nenhum grande empresário ficou rico da noite para o dia. Comigo não vai ser diferente.

- Nada na sua vida vai ser diferente, Benedito! Nunca! – disse Malvina já com os olhos cheios d’água e em elevado tom de voz...

- Você não consegue pensar em mais nada além de trabalho! (continuava) Já estamos juntos há quase dez anos e você se comportou por todos os dias durante esses dez anos da mesma maneira! Como alguém é capaz de ser tão frio? Nunca tivemos um filho! Nunca viajamos! Nunca nos relacionamos com outros casais! Nunca nos divertimos de verdade! Nunca aproveitamos a companhia um do outro como deveríamos!

- Malvina, o que é isso? Você nunca agiu assim. Você nunca se queixou.

- Pois agora eu estou me queixando. Eu estou botando pra fora tudo o que estava engasgado! Tudo o que tortura da rotina me fez assumir...

E ao passo que dava ênfase a seu sincero desabafo, Malvina se desmanchava em lágrimas e soluços. Era como se a necessidade de dizer algo verdadeiro, mesmo que o verdadeiro fosse doloroso, se fizesse maior do que a necessidade da estabilidade conjugal que sempre fora, (e essa era uma culpa conjunta) visivelmente, uma prioridade para os dois. O diálogo daquela noite deveria se tornar um divisor de águas na relação dos dois, um novo ponto de partida para uma relação mais proveitosa, um recomeço.

Benedito ficara realmente pasmo com a reação de Malvina ao passar dos dias. No fundo ele jamais esperaria que tal atitude viesse a acontecer tão cedo. Depois de algumas horas de absoluto silêncio, ao abrir a porta do quarto e sussurrar: “Malvina, meu amor, você já está melhor?”, o que ele ouviu foi um seco:

- Sim, apenas traga-me um comprimido para enxaqueca que amanhã preciso acordar disposta para o expediente que começa cedo.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Requiém Do Pequeno

Te falta o gesto largo, a ébria poesia
Te sobra a pequeneza, as pequenas certezas
Como Agenor dizia
A vida não te intoxica enquanto contas trocados
Não vês o anzol e a linha da vida que passa ao teu lado
Te falta subir ao mais alto, te falta descer ao mais baixo
Te sobra a maldita prudência, alegrias compradas a prazo
Ao invés de viver, sobrevives, sacrificas o essencial
Não choras de dor em finados, não gritas de amor carnaval
Cometes então, que surpresa!O sacrilégio final
Não vês a fugaz e humana beleza e sonhas em ser imortal

Ps.: Ganha um doce quem adivinhar de quem é esta letra...

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

DECLARAÇÃO

Você incorporou meu jeito de ser, como um objeto que vai se humanizando ao contato da gente. Você passou a usar os meus jargões, as minhas piadas repetidas, as minhas gírias, o meu sotaque. E quando você começou a usar “Verdana 10” só porque essa era a fonte que eu mais usava?

Agora eu vi que, contraditoriamente, foi você quem saiu ganhando. Nessa brincadeira foi um tanto de você que acabou se impregnando em mim. Ou então, sem perceber, você saiu levando um pedaço meu; covardemente.

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Eu não sou daqui

Como prometido há meses atrás, mais músicas para download. Essa se chama "Eu não sou daqui" e foi escrita já há algum tempinho...

(É interessante ouvir a música num fone de ouvido porque essas caixinhas tradicionais de computador não emitem o grave direito e você não vai conseguir ouvir o som do contra-baixo. A não ser que você tenha caixas de home theater no seu PC.)

EU NÃO SOU DAQUI

Eu não sou daqui, eu sei
Eu não pertenço a este lugar
P’ronde eu devo ir, não sei
Eu sei que eu não devo ficar

Onde está o abrigo mais seguro pra eu poder morar?
Mandem construir um muro impossível de saltar.

Hoje eu vou dar uma festa
e não vou convidar ninguém
E ninguém vai perceber
que eu estou longe de mim também;

Já faz tanto tempo que venho tentando me encontrar;
me perdi sozinho e sem caminho,
onde eu vou caminhar?

Eu vou fugir pra bem longe daqui
Pra onde nem eu mesmo possa estar
Eu vou fugir pra bem longe daqui
Pra um mundo onde ninguém possa me encontrar.

Meus amigos dizem que se eu não mudar, acabo só;
Mas que vida é essa que me priva do sonho maior
Que é seguir o rumo que encontrei para ser o que eu sou
E andar mesmo sem saber pra ver até aonde eu vou.

Eu vou fugir pra bem longe daqui
Pra onde nem eu mesmo possa estar
Eu vou fugir pra bem longe daqui
Pra um mundo onde ninguém possa me encontrar.

Clique aqui para baixar!

sábado, 22 de setembro de 2007

Mais uma canção

Diamantina

Diamantes cortando corações
De dentro pra fora
Ninguém vê –Nem sente
Seu sorriso rupestre

Nos bares de uma porta só
Nas ruas estreitas
Estas ladeiras que vão dar no céu
Seu sorriso rupestre

Toco o velho violão com os olhos
Como sempre toquei
Minhas mãos tocam
Você
Como nunca toquei
Saudades de um tempo que ainda não veio
De ver no meio do azul
Seu sorriso rupestre

sábado, 15 de setembro de 2007

Triste é não entender a matemática literária que o sonho mais querido nos impõe. É não enxergar um triângulo dentro do outro, na geometria barata que nos escraviza. Triste é compreender a exatidão do mundo; e, ainda assim, buscar se alicerçar no seu lado mais humano.

Triste é saber a tristeza que há de chegar logo, com a noite; e não poder domá-la, mesmo que por amizade e apego; como um domador doma os leões. Triste é não saber desinventar o medo que nos invade, faz morada em nós; se reproduz por dentro, e nos faz seguir serenos, como um rio.

Triste é viver a lucidez imbecil da vida: perceber entre as frinchas das gavetas avisos e previsões; tendo que esperá-los acontecer por não haver forma de se desmaterializar e estar fora do plano terrestre por uma mínima fração de segundo.

Triste é poder contar o tempo que sobra sem fazer juízo do tempo que falta.

Triste é esperar pelo que já aconteceu acreditando que irá acontecer de novo.

Triste é ter um texto inteiro feito apenas por palavras rudes e infiéis, palavras desobedecem ao significado que carregam, vão contra o próprio sentido até perderem sensibilidade. Sem nada sentirem.

Triste é pensar no pouco valor que há nas palavras que jogamos para fora de nós, na tentativa de forçarmos nossa continuação (tentando existir através delas) nas gerações que virão.

Triste é não saber medir. Triste é não conseguir duvidar.

Triste é suplantar a vida com alegria de mentira. Triste é pular carnaval, ser parcela de multidão, se dissolver, homogeneizar-se.

Triste é olhar pra realidade e ver que a vida não passa de uma função do 1º grau.

Triste é repetir no mesmo texto, por centenas de vezes, a palavra vida. A palavra vida é triste em qualquer contexto.

Triste é ouvir o poeta gritar: “Eu posso amar quem eu quiser!” e saber que o poeta é triste.

Triste é não dar a mínima para as pessoas que pensam que você escreve demais sobre coisas tristes.

Triste é se enganar mudando apenas as fronteiras de lugar. Triste é perseguir a inteligência salutar.

Mas triste mesmo é acreditar no, sonhar com e esperar pelo: teletransporte.